Vida dedicada ao bumba-meu-boi
CRISTIANE
BONFANTI Estagiária da UnB Agência
A paixão de Teodoro Freire pelo bumba-meu-boi
nasceu ainda na infância. O maranhense, nascido na cidade
interiorana de São Vicente de Férrea, teve o primeiro contato com a
tradição do folclore nordestino aos oito anos. Embora sua mãe o
proibisse de assistir às apresentações por medo de brigas nas ruas,
ele não resistia e saia de casa às escondidas. Hoje, aos 86 anos,
‘seu Teodoro do Bumba-Meu-Boi’, como é conhecido, não esconde o
encanto pela tradição. “Além da família, tenho três paixões na minha
vida: o bumba-meu-boi (na cultura), o Flamengo (no esporte) e a
Mangueira (no carnaval)”, confessa Seu Teodoro.
Seu Teodoro
mudou-se para Brasília em 1962, quando começou a trabalhar na
Universidade de Brasília (UnB) como contínuo. Em dezembro do mesmo
ano, deu início ao projeto do bumba-meu-boi na cidade. Em 1963,
criou o Centro de Tradições Populares, em Sobradinho, cidade
localizada a 20km de Brasília, para difundir festas e danças do
folclore nordestino.
DEDICAÇÃO – Mas o que tornou seu Teodoro conhecido foi
mesmo o bumba-meu-boi, uma espécie de auto que encena o rapto, a
morte e a ressurreição do boi. A primeira apresentação foi realizada
antes mesmo de ele mudar-se para a capital. “Vim para o primeiro
aniversário de Brasília, em 1961. Trouxe o boi para brincar e fiquei
uma semana aqui”, lembra-se Seu Teodoro. Na época, ele foi convidado
para trabalhar no Congresso Nacional, mas não aceitou e preferiu
começar na UnB no ano seguinte. “Gosto muito de liberdade, de ser
bem tratado pelas pessoas. Não se pode comparar a universidade com
nenhum lugar do mundo. A educação, o respeito e o companheirismo das
pessoas daqui são muito especiais”, diz.
Hoje, o Centro de Tradições Populares reúne
cerca de 45 pessoas e faz apresentações de bumba-meu-boi, de Tambor
de Crioulo e comemora as festas de São Sebastião e São Lázaro, entre
outras datas. Dos 44 anos em que Seu Teodoro está em Brasília, 28
foram dedicados à UnB. Mesmo aposentado há 16 anos, ele declara o
amor pela instituição.
Seu Teodoro acorda cedo todos os dias. Às 6h30, já
tomou banho e café da manhã. Às 7h, sai de casa, em Sobradinho, e
vai para a UnB. “Não consigo me desvincular da universidade. Vou a
locais como o Instituto de Artes (IdA), a Faculdade de Comunicação (FAC)
e à Diretoria de Esporte, Arte e Cultura (DEA) para conversar com as
pessoas e saber notícias da UnB”, comenta.
PERSISTÊNCIA - A esposa dele, a aposentada
Maria Sena Pereira Freire, 74 anos, lembra que Seu Teodoro ficou
triste quando chegou a Brasília porque teve de interromper as
apresentações do bumba-meu-boi que realizava no Rio de Janeiro, onde
morou entre 1953 e 1961. Mesmo diante das dificuldades, ele insistiu
e, em 1963, começou a reunir, em casa, conhecidos e pessoas que
quisessem brincar o boi. “No início, foi muito difícil conseguir
apoio e dinheiro. Eu fazia comida, cuidava das roupas e tive até de
aprender a bordar”, recorda Maria.
Ela lembra ainda que o Centro de Tradições
Populares, em 1963, era feito de paredes de taipa e coberto de
palha. Hoje, é de alvenaria e oferece boa estrutura para o
desenvolvimento do projeto do boi. Para ela, a mudança para Brasília
foi importante, tanto para a família quanto para o boi: além de
concretizar o sonho de divulgar o folclore nordestino, os dois
tiveram boas condições de educação e emprego para os nove filhos.
“Gosto daqui. Podemos divulgar a cultura num lugar onde é tudo muito
voltado para a política e faltam manifestações artísticas”, afirma.
APOIO – Dois momentos marcaram a vida de
Teodoro Freire. Um foi uma apresentação do bumba-meu-boi na enseada
de Botafogo, Rio de Janeiro, em 1957. Na ocasião, ele emocionou-se
ao ver a bandeira do estado do Maranhão. Outro foi a primeira
apresentação do boi depois da fundação do Centro de Tradições
Populares, antes conhecido como Fundação de Folclore
Brasiliense. “Vencemos uma batalha porque enfrentamos muita
dificuldade na época”, observa Teodoro.
Mas ele não ficou sozinho durante a caminhada. O
bumba-meu-boi foi motivo para a família da dona de casa Graça Maria
Monteiro Ferreira, 52 anos, mudar-se de São Luiz (MA) para Brasília,
há 12 anos. Ela veio com a mãe, três filhos e o marido, que foi
convidado por Seu Teodoro para compor e cantar toadas do boi no
Centro. “Sempre gostei da tradição, que representa o folclore da
nossa terra. Eu acompanho os ensaios e ajudo na organização das
apresentações”, afirma Graça.
SERVIÇO
O maranhense Teodoro Freire receberá a Ordem do Mérito Cultural do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Ministro da Cultura,
Gilberto Gil, às 16h da quarta-feira, 8 de novembro, no Salão Nobre
do Palácio do Planalto. O tema da cerimônia é Patrimônios,
Memórias e Valores Brasileiros, em comemoração aos 70 anos do
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Além
dele, outras 45 pessoas receberão a homenagem.