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Catira
Pesquisa e Desenvolvimento em
Danças Brasileiras
Caroline Miranda
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O Povo
Brasileiro e a Catira
Resumo: A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como
variantes da versão lusitana da tradição civilizatória européia
ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios
americanos e dos negros africanos. Essa unidade étnica não
significa, porém, nenhuma uniformidade, mesmo porque atuaram
sobre ela três forças diversificadas: a ecológica, a econômica e
a imigração que introduziu novos contingentes humanos que
permitem distingui-los hoje como sertanejos, caboclos, crioulos,
caipiras, gaúchos, ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros,
nipo-brasileiros, etc.
Nas três vertentes sócio-culturais influentes no povo brasileiro
destaca-se:
A
Matriz Tupi
Os grupos indígenas encontrados no litoral pelos portugueses
eram principalmente tribos de tronco Tupi que, havendo se
instalado uns séculos antes, ainda estavam desalojando antigos
ocupantes oriundos de outras matrizes culturais. Eram por volta
de um milhão de índios, divididos em dezenas de grupos tribais.
Não era pouca gente, porque Portugal naquela época teria a mesma
população ou pouco mais.
Na escala da evolução cultural, os povos Tupis davam os
primeiros passos da revolução agrícola, superando assim a
condição paleolítica, tal como ocorrera pela primeira vez há 10
mil anos, com os povos do velho mundo.
A agricultura lhes assegurava fartura alimentar durante todo o
ano e uma grande variedade de matérias-primas, condimentos,
venenos e estimulantes. Desse modo, superavam a situação de
carência alimentar a que estão sujeitos os povos pré-agrícolas,
dependentes da generosidade da natureza tropical, que provê com
fartura, frutos, cocos e tubérculos durante uma parte do ano e,
na outra, condena a população à penúria.
Os povos tupis apesar da unidade lingüística e cultural nunca
puderam unificar-se numa organização política que lhes
permitisse atuar conjugadamente. Sua própria condição evolutiva
de povos de nível tribal fazia com que cada unidade étnica, ao
crescer, se dividisse em novas entidades autônomas que,
afastando-se umas das outras, iam se tornando reciprocamente
mais diferenciadas e hostis. Criaram-se confederações regionais
que realizavam alianças com Portugueses, Franceses e lutavam
contra o domínio dos calvinistas e jesuítas. Esses grupos
denominados Tamoios, Tupinambás, Carijós, Goitacás, Aimorés,
Potiguaras lutavam contra a Reforma ou a favor dela, dominados
pelos inimigos vindos do “além-mar”.
Muitos outros povos indígenas tiveram papel na formação do povo
brasileiro e sua cultura, alguns deles como escravos
preferenciais, por sua familiaridade com a tecnologia dos
paulistas antigos, como os Paresi. Outros, como os Bororo,
Xavantes, Kayapó, Kaingang e os Tapuia, inimigos
irreconciliáveis, imprestáveis para escravos porque seu sistema
adaptativo contrastava demais com os dos povos Tupi.
Um dos povos que se destacaram foram os Guaikuru, chamados
índios cavaleiros, devido a sua constituição física, que eram
guerreiros agigantados, muitíssimo bem proporcionados, que
segundo Félix de Azara apud Holanda – 1986:
“duvido que haja na Europa povo algum que, em tantos e tantos,
possa comparar-se com estes bárbaros”
”Não há imagem mais expressiva de um Hércules pintado” (Sanches
Labrador – 1910 – Jesuíta Espanhol)
O Povo brasileiro influenciado pela Europa extinguiu milhares de
povos nativos, com suas línguas e culturas próprias e
singulares, para dar nascimento às macro etnias maiores e mais
abrangentes que jamais se viu.
A dança indígena era um ritual largamente usado como forma de
religião, poder e entretenimento. A maioria das coreografias era
circular com um ritmo marcado pela batida dos pés e cantos. Cada
grupo tinha sua dança característica, que registrava a
importância da família, o respeito pelos mortos, o poder vindo
das entidades ali cultuadas com o objetivo de receberem benções
de boa colheita e saúde. Os instrumentos utilizados eram
flautas, chocalhos, cuias, etc.
Na
catira um dos passos mais utilizados é o chamado “Serra Abaixo”,
esse passo se faz presente com o grupo se deslocando em círculo
e com uma batida de pé que marca o compasso da dança e mostra a
forte influência indígena no seu bailado.
A Linha Lusitana
Com forte influência sócio-econômica, a invasão portuguesa tinha
como objetivo juntar todos os homens numa só cristandade,
divididas em duas versões, a católica e a protestante.
Com a destruição das bases da vida social indígena, a negação de
todos os seus valores, o despojo, o cativeiro, muitos índios
morriam de tristeza, certos de que todo o futuro possível seria
a negação mais horrível do passado. Sobre esse povo que caiu a
pregação missionária dos jesuítas, que para uma melhor
aproximação desenvolviam danças com violas que pelo som
encantavam os índios e se aproximavam para um convívio pacífico.
Os jesuítas trouxeram os santos e as festas dedicadas à adoração
hoje muito encontradas nas festas comunitárias de todo Brasil. A
catira é uma dança muito apreciada nas festas dos meses de junho
e julho onde se destacam os santos católicos: São João, São
Pedro e Santo Antonio. Nas manifestações populares a dança da
catira ou cateretê em tupi, é um sapateado executado com forte
influência da dança portuguesa, tais como:
O
Vira é uma dança conhecida como tradicional portuguesa
considerada uma das mais antigas, populares e características
danças tradicionais deste país. Normalmente é dançado por vários
pares em roda, evoluindo no sentido anti-horário: rapazes e
moças vão alternadamente ao centro da roda, batendo com os pés e
com os braços levantados. O nome desta dança vem do verbo
"virar", pois são os seus movimentos característicos. Os passos
são acompanhados por violões, acordeões e cantos que falam sobre
os aspectos da vida do campo e também dos relacionamentos
amorosos.
O Fado é uma dança de pares soltos com formação em fileiras que
se defrontam. Duas violas e um pandeiro fazem o acompanhamento
musical, enquanto se desenvolve a coreografia: sapateado dos
pares nas fileiras iniciais, evolução por fora e depois por
dentro, retorno aos lugares primitivos, troca de pares, um a um,
nas fileiras opostas e balanceio simultâneo dos demais em seus
lugares. O fado também se dança aos pares, semelhante à
quadrilha, com palmeados, sapateados e, algumas vezes, batidas
de tamancos seguros nas mãos. Compõe-se de três partes: coritiba
(roda de pares em caracol), roda-morena (roda de pares, dois a
dois) e fado (quadrilha).
Influência Espanhola
A maior parte da população brasileira no século XIX era composta
por negros e mestiços. Para povoar o território, suprir o fim da
mão-de-obra escrava, mas também para "branquear" a população e
cultura brasileiras, foi incentivada a imigração da Europa para
o Brasil durante os séculos XIX e XX.
A presença espanhola em terras brasileiras acontece desde o
início da colonização do Brasil. Porém, só se pode falar de uma
efetiva imigração de espanhóis para o Brasil a partir do final
do século XIX.
Na década de 1880, chegaram os primeiros espanhóis no Brasil,
sendo 75% com destino às fazendas de café em São Paulo, Rio de
Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Imigraram em grande número para o
Brasil até 1950, período em que entraram cerca de 700.000
espanhóis no país e eram principalmente oriundos da Galícia e
Andaluzia.
Os maus-tratos contra espanhóis nas fazendas de café e o
trabalho semi-escravo fez com que a Espanha passasse a
restringir a ida de seus cidadãos para o Brasil. A imigração
espanhola foi grande até a década de 1930.
Os espanhóis introduziram a criação de gado, que rapidamente
tornou-se a economia predominante no Rio Grande do Sul. A
população se concentrava nos pampas, tendo havido uma fusão de
costumes espanhóis, portugueses e indígenas, que deram origem ao
tipo regional gaúcho.
Embora o gaúcho fosse mais português que espanhol, a influência
cultural vinda dos países vizinhos tornaram os gaúchos dos
pampas bastantes hispanizados, a ponto de falarem um dialeto que
misturava elementos espanhóis e portugueses. Nas danças
espanholas podemos citar o flamenco, que por suas
características de batidas de pé e palmas também vieram por
influenciar a catira brasileira.
O
flamenco é um estilo musical e um tipo de dança fortemente
influenciado pela cultura cigana, mas que tem raízes mais
profundas na cultura musical mourisca, influência de árabes e
judeus. A cultura do flamenco é associada principalmente à
Andaluzia na Espanha, e tornou-se um dos ícones da música
espanhola e até mesmo da cultura espanhola em geral.
Originalmente, o flamenco consistia apenas de canto sem
acompanhamento. Depois começou a ser acompanhado por guitarra
(toque), palma e sapateado. Um dos ritmos do flamenco mais
rápido é chamado de BULERIA cujo bailarino sapateia em ritmo
cadenciado muito próximo a passos do Catira goiano e paulista
identificado pelo nome de ROJÃO.
Outro ritmo do flamenco é o Farruca muito difundido pelo famoso
filme “Carmen” onde o bailarino sapateia com as pontas do pé
cujos passos são muito lembrados no estilo de catira LUNDUN mais
encontrado na região de Minas Gerais.
Chula
é uma dança típica do Rio Grande do Sul com grande influência
espanhola e muito parecida com os passos da catira LUNDUN, é
dançada em desafio, praticada apenas por homens. Uma vara de
madeira denominada lança e medindo cerca de 4 metros de
comprimento, é colocada no chão, com dois ou três dançarinos
dispostos em suas extremidades. Ao som da gaita gaúcha, os
dançarinos executam diferentes sapateados, avançando e recuando
sobre a lança. Após cada seqüência realizada, o outro dançarino
deverá repeti-la e em seguida realizar uma nova seqüência,
geralmente mais complicada que a do seu parceiro.
Assim, vencerá o dançarino que não perder o ritmo, não encostar
na vara ou o que conseguir realizar a seqüência coreográfica
dançada como desafio pelo dançarino anterior. Antigamente a
chula era usada durante os bailes, onde dois peões queriam
dançar com uma mesma prenda, disputando o direito de dançar com
esta prenda pelo resto do baile. Hoje essa dança é mostrada
apenas de forma cultural durante eventos, rodeios, etc., porém
não podendo repetir o passo, sapateado, de seu oponente.
Raízes Africanas
Os negros do Brasil foram trazidos principalmente da costa
ocidental africana, destacando-se em três grandes grupos:
Primeiro as culturas sudanesas – grupos Yoruba chamados nagô,
Dahomey chamados de gegê e Fanti-Ashanti chamados de minas – e
outras mais oriundas da Gâmbia, Serra Leoa, Costa da Malagueta e
Costa do Marfim. O segundo da região islâmicas: Peuhl, Mandinga,
Haussa chamados de malé e alufá. O terceiro grupo vindo das
tribos Bantu, do grupo congo-angolês, vindos de Angola e
Moçambique.
Desse último podemos tirar grandes influências na dança da
catira da região norte como o uso de instrumentos de percussão e
um ritmo muito próximo ao ritmo do “tambor de crioula” dança
típica africana muito difundida na região.
O
Tambor de Crioula é uma dança de origem africana praticada por
descendentes de negros no Maranhão em louvor a São Benedito, um
dos santos mais populares entre os negros. É uma dança alegre,
marcada por muito movimento dos brincantes e muita descontração.
Os motivos que levam os grupos a dançarem o tambor de crioula
são variados podendo ser: pagamento de promessa para São
Benedito, festa de aniversário, chegada ou despedida de parente
ou amigo, comemoração pela vitória de um time de futebol,
nascimento de criança, matança de bumba-meu-boi, festa de preto
velho ou simples reunião de amigos.
Na catira do Tocantins podemos ver esses instrumentos feitos
artesanalmente com seu ritmo marcante e seus dançarinos
coreografados em roda como no tambor de crioula.
A animação é feita com o canto puxado pelos homens com o
acompanhamento das mulheres. Um brincante puxa a toada de
levantamento que pode ser uma toada já existente ou improvisada.
Em seguida, o coro, integrado pelos instrumentistas e pelas
mulheres, acompanha, passando esse canto a compor o refrão para
os improvisos que se sucederão. Os temas, puxados livremente em
toadas, podem ser classificados como de auto-apresentação,
louvação aos santos protetores, sátiras, homenagem às mulheres,
desafio de cantadores, fatos do cotidiano e despedida.
A coreografia da dança apresenta vibrantes formas de expressão
corporal, principalmente pelas mulheres que ressaltam, em
movimentos coordenados e harmoniosos, cada parte do corpo
(cabeça, ombros, braços, cintura, quadris, pernas e pés). As
dançantes se apresentam individualmente no interior de uma roda
formada por um grupo de vários brincantes, incluindo dirigentes,
dançantes, cantadores e tocadores. Da roda, participam também os
acompanhantes do tambor. Todos acompanham o ritmo com palmas.
Toda a marcação dos passos da dança é feita por um conjunto de
tambores que os brincantes chamam de parelha. São três tambores
nos tamanhos pequeno, médio e grande, feitos de troncos de
mangue, pau d'arco, soró ou angelim. Um par de matracas batidas
no corpo do tambor grande auxilia na marcação. O tambor pequeno
é conhecido como crivador ou pererengue; o médio é chamado de
meião, meio ou chamador e o grande recebe, entre os tocadores,
os nomes de roncador ou rufador.
Os tambores são bastante rústicos, feitos manualmente de troncos
cortados nos três tamanhos e trabalhados exteriormente com
plainas para que a parte superior fique mais larga que a
inferior. Internamente, o tronco é trabalhado a fogo com o
auxílio de instrumentos de ferro para que fique oco. A cobertura
do tambor é feita com o couro de boi, veado, cavalo ou tamanduá.
Depois da cobertura, é derramado azeite doce no couro que fica
exposto ao sol para enxugar e atingir o "ponto de honra", quando
é considerado totalmente pronto. Durante a dança, os tambores
são esquentados na fogueira para que tenham afinação perfeita.
Em 2007, o Tambor de Crioula ganhou o título de Patrimônio
Cultural Imaterial Brasileiro.
A Catira une as influências indígenas, européia e africana
desenvolvendo uma espécie de sapateado brasileiro executado com
"bate-pé" ao som de palmas e violas. Tanto é exercitado somente
por homens, como também por um conjunto de mulheres como na
dança indígena. É praticada largamente no interior do Brasil,
especialmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás,
Mato Grosso do Sul, Tocantins e em menor escala na região
nordeste e sul.
Os homens e mulheres usam trajes comuns de passeio: chapéu,
botina, calça comprida, camisa manga longa e gravatas de lenços.
O ritmo da dança é marcado por violas, batidas das mãos – palmas
- uma contra a outra.
A Coreografia varia de região para região, sendo Minas Gerais
mais tradicionalista e São Paulo e Goiás com influências da
linha country americana e é assim apresentada:
Início: o violeiro puxa o rasqueado e os dançadores fazem a
"escova", isto é, um rápido bate-pé, bate-mão.
A seguir o violeiro canta parte da moda, ajudado pelo "segunda"
– violeiro que acompanha o cantador - e volta ao "rasqueado".
Os dançadores entram no bate-pé, bate-mão e dependendo da região
pode ser incluídos pulos, transpasses e voltas.
Prossegue
depois o violeiro o canto da moda, recitando mais uns versos,
que são seguidos de bate-pé, bate-mão e pulos.
Quando encerra a moda, os dançadores após o bate-pé- e bate-mão
realizam a figura que se denomina "Serra Acima", na qual rodam
uns atrás dos outros, da esquerda para a direita, batendo os pés
e depois as mãos.
Feita a volta completa, os dançadores viram-se e se voltam para
trás, realizando o que se denomina "Serra Abaixo", sempre a
alternar o bate-pé e o bate-mão. Ao terminar o "Serra Abaixo"
cada um deve estar no seu lugar, a fim de executar novamente o
bate-pé, o bate-mão.
Para grupos femininos o ritmo é mais ameno mais atualmente até
de salto alto muitos grupos se apresentam com graciosidade e
cadência – Goiás.
Final: encerra-se com o Recortado, no qual as fileiras trocam de
lugar e assim também os dançadores, até que o violeiro e seu
"segunda" se colocam na extremidade oposta e depois voltam aos
seus lugares.
Durante o recortado, depois do "levante", no qual todos levantam
a melodia, cantando em coro, os cantadores entoam quadrinhas em
ritmo vivo. Muito comum na região interior de São Paulo e Goiás.
No final do recortado, os dançadores executam novamente o
bate-pé, o bate-mão e pulos dando um ritmo mais acentuado
exigindo uma maior coordenação e preparo físico.
Os ensinamentos são passados de pai pra filho nas festas
comunitárias e shows temáticos fazendo perpetuar a cultura e
divulgando as raízes influentes na etnia do povo brasileiro.
Referências:
• AGUIAR, C.M., Educação, Cultura e Criança, Ed. Papirus,
Campinas-SP, 1994.
• AGUIAR, C.M., Educação, Natureza e Cultura Um Modo de Ensinar,
USP, 1998.
• CANDIDO, A. Parceiros do Rio Bonito, Ed. 34, 1989.
• DA MATTA, R., Carnavais, Malandros e Heróis, Ed. Zahar, Rio de
Janeiro-RJ, 1983.
• GOMES, Christianne Luce. Belo Horizonte, Autêntica, 2004.
• RIBEIRO, D., O Povo Brasileiro, A Formação e o Sentido do
Brasil, Companhia das letras, 2001.
• SOUZA, M. I. G. MELO, V. A. Dança (in) Dicionário Crítico do
Lazer (ORG).
• VEBLEN, THORSTEIN, A Teoria da Classe Ociosa, Editor Vitor
Civita, 1983.
• Fotos – Wosley Torquato da Silva – Uberaba – Minas Gerais –
Brasil - 2009
Para
maiores informações
carol_line.Miranda@yahoo.com.br
Publicado na
http://www.efdeportes.com/
Revista Digital - Buenos Aires - Año 14 - Nº 139 - Diciembre de 2009
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