|
Com forte apelo ambiental, produtos fazem
sucesso
entre os turistas
|
por Suzana Lopes
foto: Acervo Pesquisador
Quem quiser ganhar dinheiro na Amazônia tem uma opção
muito lucrativa: comercializar manufaturas feitas com
jarina. Essa é a mensagem das entrelinhas do livro
Jarina - O Marfim da Amazônia, escrito e financiado pelo
professor de Geologia da UFPA, Marcondes Lima da Costa,
com a co-autoria do geólogo Helmut Hohn e da estudante
de mestrado Suyanne Rodrigues. As 156 páginas da
publicação tratam desde os aspectos físicos até os
possíveis usos comerciais da semente.
Jarina é a semente de uma espécie de palmeira de mesmo
nome. De beleza comparável ao marfim, quando
beneficiada, a semente resulta em peças de alto valor
comercial e simbólico, como bijuterias e biojóias. A
árvore é encontrada em sub-regiões amazônicas na
Bolívia, no Peru, na Colômbia, no Equador e no Brasil,
neste último, especificamente, nos Estados de Rondônia,
Acre e Amazonas.
Há 300 anos, os povos indígenas utilizavam a jarina para
fins comestíveis e para a produção de adereços. Mas só
recentemente a semente tornou-se conhecida do grande
público. Na UFPA, as pesquisas iniciaram no final da
década de 1990, capitaneada por Marcondes Costa, que
também participou da implantação do Pólo Joalheiro do
Pará. Quando se trata de comercialização, a história se
torna ainda mais incipiente.
O livro aborda os vários aspectos da semente, começando
por uma análise botânica geral, apontando dados sobre o
perfil da palmeira e as condições de crescimento.
Segue-se a caracterização física da semente, com as
propriedades que potencializam a jarina como uma
mercadoria de alto valor agregado.
“Nós analisamos os aspectos físicos e constatamos que a
semente possui dureza e resistência aos ácidos”, conta o
professor. Assim, as peças podem durar de cinco a 10
anos, com os cuidados necessários (evitar contato com
microrganismos, ter pouco contato com a pele e conservar
em ambiente protegido da luz e da umidade). A jarina
também apresenta grande porosidade, o que facilita os
processos de melhoramento da semente, como pinturas,
tingimentos e cozimentos.
MARFIM VEGETAL – Semelhante ao marfim
animal, a semente tem um forte apelo ambiental. Sua
utilização pode ser uma forma de substituir a extração
do marfim de animais, ainda que a qualidade e a
durabilidade do marfim vegetal sejam, comparativamente,
menores.
Além das vantagens intrínsecas à semente, há o fator
financeiro: o investimento em mercadorias feitas com
jarina é de baixo custo de extração e de beneficiamento.
No livro, o professor apresenta alguns valores: uma
semente bruta, por exemplo, custa R$0,02; sem a casca, o
preço da unidade é R$1,50 . Esses números se tornam mais
expressivos quando comparados aos preços de produtos.
Bijuterias custam entre R$25 e R$45. Já as biojóias são
vendidas a preços acima de R$65,00. Marcondes Lima
também reserva um capítulo para explicar o processo de
mercantilização de acessórios feitos a partir da
semente. Para incentivar a indústria da jarina, ele
indica fornecedores, lojas e pontos turísticos onde já
se comercializam bijuterias e biojóias.
O professor ainda analisa a política extrativista e
industrial da jarina no Estado do Acre, onde a economia
da semente está mais avançada. Ele explica que a
sustentabilidade da produção depende da não-degradação e
da extração controlada da semente. “A jarina não acaba,
é uma palmeira de fácil reprodução na mata. A semente
cai no solo e, se tiver espaço para se desenvolver, ela
cresce”, explica.
No Pará, a economia da jarina ainda precisa de
investimento e reconhecimento. Não há cultivo e extração
da jarina no Estado. Em Belém, comercializa-se a semente
já beneficiada, principalmente, como bijuteria e
biojóia. O panorama paraense justifica-se pelo baixo
desenvolvimento do turismo. “O Pará ainda não tem um
turismo significativo e quem compra esse tipo de produto
são os turistas”, analisa o geólogo.
Árvore e semente multiuso
Não só em acessórios femininos resulta a
jarina-semente. Nos países andinos, por exemplo, já se
produzem entalhes e mini-esculturas que misturam vários
tipos de sementes beneficiadas (tingidas, melhoradas com
óleo), de vários tamanhos.
Uma possível utilidade da jarina, ainda pouco
desenvolvida, é a fabricação de carvão ativado, um
material adsorvente (com propriedade de fixação), com
aplicações industriais nobres. Pode ser utilizada, por
exemplo, no tratamento de água e de efluentes
industriais, assim como no refinamento de produtos na
indústria de alimentos.
Os índios aqueciam as sementes lentamente até adquirirem
forma pastosa. Esta pasta era utilizada para dar
antiaderência a panelas de cerâmica, melhorando o
cozimento. Há 300 anos, os povos indígenas também
apreciavam a jarina como alimento. Em estágio jovem, ela
possui uma massa leitosa, com água adocicada semelhante
ao coco. Ainda hoje, ela agrada ao paladar,
principalmente, dos equatorianos.
A jarina-árvore, por sua vez, pode ter todas as partes
aproveitadas. As folhas servem de cobertura para cabanas
e são matéria-prima para a fabricação de cordas e
cestos. A parte interna do tronco rende palmitos e a
externa, carvão vegetal e esteio.