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Spensy Pimentel
Enviado especial
Alto Xingu – Na última quinta-feira (25), durante todo o dia, os
Kuikuro, junto com seus aliados Kalapalo, prepararam a recepção para
os convidados das demais aldeias do Xingu, com beiju, mingau de
farinha de mandioca e peixe moqueado (assado e defumado sobre uma
grelha). Esse processo envolve centenas de pessoas. A mandioca é
fornecida pelo familiar mais importante do principal morto
homenageado – no Kuarup que terminou ontem, era Jakalo, um dos
chefes kuikuro, filho de Nahu e Sesuaká, que morreram recentemente.
Enquanto isso, os xamãs e familiares dos mortos homenageados
trouxeram do mato os troncos cortados da árvore de uma determinada
espécie (é chamada de kuarup pelos Kamayurá, um dos 14 povos do Alto
Xingu). Segundo a mitologia xinguana, foi dessa árvore que o criador
dos homens "fez as mulheres e as enviou para se casarem com o jaguar
(onça)", como explica texto na página do Instituto Sócio-Ambiental
na internet.
Os troncos foram fincados abaixo de uma pequena cobertura de
taquara, ao lado da casa dos homens (ela guarda as flautas rituais,
que não podem ser vistas pelas mulheres e fica no centro do pátio da
aldeia). Depois, foram pintados e enfeitados como um xinguano. Há
uma decoração para os homens e outra para as mulheres, dependendo do
morto que representam.
Enquanto acontece a preparação da festa, homens portando as flautas
duplas conhecidas como atanga, segundo o antropólogo Carlos Fausto,
iam de maloca em maloca na aldeia em companhia das adolescentes que
saem da reclusão ritual no final da festa. A reclusão das moças
acontece na época em que elas têm a primeira menstruação e marca a
passagem entre a infância e a
vida adulta – ao final do ritual, elas estão prontas para casar-se.
Depois que os troncos foram preparados, no início da noite, os
familiares dos mortos sentaram-se ao redor deles e começaram a
chorar por eles, o que durou toda a madrugada. Enquanto isso, uma
dupla de xamãs permanecia rezando e tocando seus maracás. As
comunidades convidadas para o Kuarup acamparam na mata próxima à
aldeia. À noite, um grupo por vez, os homens convidados iam chegando
à aldeia fazendo barulho e cantando para pegar tições de pequenas
fogueiras rituais produzidas pelos anfitriões no pátio central da
aldeia, ao lado dos troncos.
Ontem (26) pela manhã, uma ou duas horas depois que o sol raiou, as
comunidades convidadas começaram a chegar ao pátio da aldeia. Muitos
vieram de caminhão ou em bicicletas, que deixavam ao lado das bolsas
em torno da região central do pátio de Ipatse. Logo depois, começou
a disputa do huka-huka, competição tradicional entre os xinguanos. O
nome, segundo o texto do ISA, é de origem kamayurá e "lembra os
gritos dos lutadores ao se defrontarem imitando o rugido da onça".
Para a luta, os homens se untam com óleo de copaíba, pasta de urucum
e pequi. Eles também se submetem previamente a arranhões feitos nos
braços com o dente de um peixe chamado "cachorrinha" e dizem tomar
eméticos e se untar com ervas que aumentam sua força. As lutas
aconteceram entre representantes das diversas aldeias presentes ao
Kuarup hoje, como Aweti, Kamayurá, Waurá e Mehinaku.
Após as lutas, as moças que estavam em reclusão na aldeia foram
apresentadas aos visitantes. Uma delas chegou a se casar, no início
da tarde. Acompanhada do tio do noivo, ela seguiu até a casa dele,
para pegar sua rede e levá-la até a casa da família dela, onde ele
passa a morar.
A página do ISA na Internet traz interpretação do Kuarup feita pelo
antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: "Em geral, o que se faz
nesses rituais interaldeias é algo que está descrito em um mito, mas
que não é apenas uma simples repetição ou encenação sua. O que o
rito celebra, de fato, é a impossibilidade de uma repetição
idêntica: ‘agora só vai ter festa’, disse o demiurgo(espécie de
herói criador) ao fracassar na tentativa de ressuscitar os primeiros
seres humanos que morreram, inaugurando assim a mortalidade (...). A
fabricação primordial dos humanos, de acordo com a mitologia
alto-xinguana, foi obra de um demiurgo que deu vida a toras de
madeira dispostas em um gabinete de reclusão, ao soprar-lhes fumaça
de tabaco. Assim foram criadas as primeiras mulheres, entre elas a
mãe dos gêmeos Sol e Lua, arquétipos e autores da humanidade atual.
Em homenagem a essa mulher foi celebrada a primeira festa dos
mortos, que é a mais importante do Alto Xingu e que consiste,
portanto, em uma reencenação da criação primordial, sendo também o
momento privilegiado de apresentação pública dos jovens recém-saídos
da reclusão pubertária. Assim, é um ritual que enreda a morte e a
vida; as moças que saem da reclusão são como as primeiras humanas,
mães dos homens".
27/08/2005
fonte ©
Agência Brasil -
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