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Braille |
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Patrícia
Silva de Jesus
Professora
Especialista em Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva com
ênfase em educação de cegos pela Universidade do Estado da Bahia.
Mãos e olhos
Dia desses eu vi uma comunidade no Orkut para pessoas que possuem a
habilidade de escrever com as duas mãos, os chamados ambidestros. Eles se
vangloriavam de tal proeza.
Quando aprendi Braille, me desafiei a ler com o tato, embora enxergasse.
Sempre disse a meus alunos cegos que ler Braille com as mãos não era um
"bicho de sete cabeças", mas eu mesma não sabia fazê-lo. Então, um dia
fechei meus olhos e fui explorando um lado meu por mim desconhecido: eu
também tenho sensibilidade nestes dedinhos até então "cegos" pela falta de
atenção, fruto de um mundo cujo apelo visual é tão intenso que chega a
diminuir e até mesmo castrar os outros sentidos.
Foi uma experiência engenhosa, difícil, mas deliciosamente prazerosa.
Posso não ser ambidestra, mas sou multisensitiva e, mais importante que
isso, quero ser sensível às necessidades dos meus alunos, sugerindo e
descobrindo junto a eles caminhos por mim experimentados e outros ainda
maiores.
Patrícia Silva de Jesus
28 de abril de 2007 |

Seminário Biblioteca e Acessibilidade:
Deficiência Visual em Foco
Objetivo: Reunir profissionais envolvidos no processo de Informação
e Educação de pessoas com deficiência visual no debate acerca de
melhores opções de acessibilidade nas ambiências de leitura.
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REFLETINDO SOBRE O USO DA PARÁBOLA DOS
CEGOS E O ELEFANTE
Por: Patrícia Silva de Jesus
Comunicar uma idéia, partilhar
pensamentos, sentimentos, vivências, fazer-se compreendido por seus
pares é uma necessidade humana e, na tentativa de saciar esse
desejo, o homem busca aprimorar seus canais de informação. Como
recurso facilitador da explicação de determinado assunto usa-se
frequentemente o que os gregos chamaram de Parábola, uma ilustração
literária que estabelece um laço de verossimilhança entre a narração
de uma história fictícia e a realidade a qual ela se relaciona.
Assim, é bastante comum a diversas culturas o homem usar histórias
análogas, parábolas, alegorias, ditados populares, fábulas no
transcorrer de sua retórica.
Desde meus primeiros passos no universo
da Educação Especial em meados de 1997, participo de congressos,
seminários e eventos diversos promovidos por instituições de/para
pessoas com deficiência visual e, invariavelmente, algum
profissional da área cita a história Os Cegos e O Elefante. Trata-se
da narrativa do encontro de um grupo de cegos de nascença que tinham
o desejo de conhecer um elefante através do tato e teve seu desejo
atendido por alguma pessoa que os conduziu ao animal e
permitiu-lhes tocar o maior mamífero terrestre. Reunidos
posteriormente e interrogados sobre que formato teria um elefante,
cada um dos cegos apresentou uma versão, baseada em que parte do
corpo do animal eles tocaram. Logo, na concepção do cego que tocou a
tromba, o elefante era como uma serpente, enquanto outro comparou o
bicho a um tronco, por ter tocado a perna. Outro que tocou a orelha
afirmou ser o elefante a semelhança de um leque e assim cresceram os
equívocos em série. Como reza a sabedoria popular, quem conta um
conto aumenta um ponto, então a famosa história apresenta versões
com muitos itens variantes, como o número de cegos protagonistas, o
cenário onde tudo aconteceu, entre outros. Muda-se tanto essa
história que houve quem publicasse um texto chamado “A verdadeira
história dos cegos e o elefante” além de outro intitulado “Os sete
sábios cegos e o elefante”. Embora esses dados não alterem minha
impressão sobre o uso desse texto de conteúdo duvidoso e gosto
questionável, prefiro acreditar que sua origem é hindu e que sua
versão mais difundida foi produzida pelo poeta americano John
Godfrey.
Sei reconhecer a importância de
profissionais que fazem de seu trabalho remunerado o seu compromisso
diário na luta por melhores opções de convivência em sociedade, mas
me sinto angustiada cada vez que escuto esse caso do elefante ser
citado como exemplo de como se processa a percepção tátil em um cego
e até me perguntei seguidas vezes onde seria possível encontrar sete
cegos com um déficit intelectual/sensorial tão severo a ponto de
tocarem em partes isoladas de um todo e não se sentirem motivados a
explorar o restante, tendo em vista que o sonho da vida deles era
conhecer o tal do sucessor do mamute. Já me perguntei também se eu
não estaria sendo muito rígida em relação ao texto, por se tratar de
uma obra de ficção, mas a resposta que eu mesma me dei depois de
muito pensar é que eu não estou censurando a fantasia de quem
escreveu e sim contestando a sua utilização por profissionais da
Educação Especial pois, mesmo após estudos e convivência com pessoas
com deficiência visual, insistem em utilizar como parábola um
material que reforça idéias preconcebidas e denotam que estudar e
conviver não foram suficientes para eliminar o estereótipo já
calcificado, endurecido como uma rocha. Insistem, talvez de forma
inconsciente, em difundir o modelo do cego dependente exclusivamente
da intervenção de um vidente, como se a cegueira em si fosse um
fator limitador das funções intelectuais de um ser humano.
Não faço coro com os que, de maneira
irresponsável, afirmam que as pessoas cegas são iguais às videntes
na aquisição do saber, pois já me convenci, após estudos e
observações práticas, que nem mesmo entre os videntes a aprendizagem
se dá de forma unívoca. Reconheço a cegueira como uma limitação
grave: a ausência de visão em uma sociedade onde a maioria das
informações se dá de forma visual, oferece uma situação que merece
ser tratada com seriedade. Tenho inúmeros amigos e ex-alunos cegos e
com baixa visão. Pessoas com as quais eu aprendi a me libertar de
alguns preconceitos e a iniciar meu processo de eliminação de tantos
outros, pois acredito que ser preconceituoso é condição de quem
pensa e até brinco com uma frase célebre [Descartes que me perdoe]:
penso, logo sou preconceituosa. Justifico dizendo que não estamos
imunes a fazer uma imagem mental de uma determinada pessoa ou
situação nova, mas que essa impressão preconcebida deve ser
avaliada, questionada para não nos tornarmos escravos dos equívocos
na convivência com nosso semelhante. Esperar que todas as pessoas
cegas tenham os mesmos excelentes resultados em diferentes áreas do
conhecimento é uma forma de preconceito que torna sofrível a
inclusão das pessoas com deficiência na sociedade, especialmente nas
escolas onde professores exigem que seus alunos cegos tenham os
mesmos rendimentos e percepções táteis/sinestésicas que outros cegos
que os antecederam. Quanto a isso, já ouvi diversas vezes pessoas
cegas se queixarem e afirmarem que preferem ser alunos de
professores que nunca tiveram em suas classes regulares um aluno com
cegueira, pois assim as comparações inexistiriam.
Com tantos problemas a serem sanados,
com tanta gente séria batalhando por sua inclusão e de outros nos
seguimentos gerais da sociedade, em meio aos inúmeros problemas como
falta de recursos financeiros, falta de qualificação profissional
consistente, hipocrisia de quem nunca conviveu em nenhum momento de
sua vida com uma pessoa com deficiência e se arvora porta-voz dessa
parcela da sociedade, nesse cenário crítico onde faltam livros,
segurança pública, um desenho arquitetônico que contemple a
diversidade de moradores de determinada área urbana, não dá para
ficar quieta e me conformar com o fato de ainda existirem
profissionais que, quando têm a oportunidade de desmistificar
pensamentos errôneos, formadores de opinião que são, acabam por dar
reforço aos estigmas, por não selecionarem criticamente seus
recursos de palestra. Para mim, o maior celeiro de exemplos práticos
e que facilitam a compreensão de outras pessoas, são os vividos
diariamente desde minha decisão em ser professora de Braille e ouvi
pela primeira vez a famosa história do elefante e os cegos, animal
que coloco aqui, propositadamente, antes dos três ou sete cegos da
história, pois durante todo o este texto me detive a defender a
Educação de pessoas com deficiência visual e em nenhum momento
manifestei solidariedade ao pobre bicho, vítima dos equívocos dos
“sábios cegos”, sem voz para se defender dessa parábola mal
utilizada, que talvez a partir de hoje seja encarada por mim com
maior senso de humor, embora minha opinião sobre ela continue a
mesma!
27 de maio de 2008 |
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Inclusão Ponto a Ponto: A inclusão
Social da Pessoa com Deficiência Visual Através da Produção Escrita*
Não há dúvidas de que a leitura/escrita é um dos maiores legados da
humanidade. O homem, na tentativa de comunicar-se mais e melhor com
seus pares, criou estratégias gráficas que possibilitavam a troca de
informações, a princípio pinturas rupestres com figuras bastante
rudimentares, chegando à contemporaneidade com os modernos emoticons
da era digital.
(...)
Como meio de acesso à informação, a escrita se tornou imprescindível
no mundo contemporâneo e o indivíduo que não se apodera desse bem
fatalmente estará à margem dessa sociedade letrada. Saber ordenar
caracteres formando palavras foge à essência da genuína produção
literária, que é muito mais que reproduzir técnicas de redação e que
requer uma elaboração intelectual clara para transmissão do
pensamento, implica um olhar crítico sobre o mundo onde se vive.
(...)
Saber escrever é saber ler e saber ler é mais que decifrar
caracteres em seqüência, é entender o contexto em que se vive,
perceber a realidade na qual está inserido e aceitar-se enquanto
agente transformador dessa realidade. Por esta razão há quem se
interesse na perpetuação de um sistema de educação cruel e ilógico,
onde jovens são treinados para lerem o suficiente para se tornarem
consumidores de bens, que dependam apenas de uma leitura rudimentar,
como o celular, pois há quem sobreviva da insipiência dos que
ignoram a importância social da escrita.
(...)
É necessário desenvolver no jovem o gosto pela escrita, porém dizer
que ler é uma excelente forma de ampliar vocabulário ou dizer que a
leitura nos permite viajar na imaginação não são argumentos
suficientemente fortes para se atrair o jovem contemporâneo a este
mundo das letras. Toda criança entra na escola ávida por ler e
escrever, porém alguns anos letivos mais tarde, tudo o que elas mais
abominam é o ato de ler e escrever.
(...)
As pessoas cegas ficaram em desvantagem em relação à leitura/escrita
durante muito tempo, pela inexistência de um meio eficaz de registro
de mensagens que permitisse um contato direto entre leitor e o
texto, sem interferência de um ledor. Excluídos do convívio social
por não se enquadrarem ao modelo utópico de perfeição requerido pela
sociedade historicamente, a pessoa com deficiência visual viu suas
possibilidades de igualdade ao acesso ao mundo letrado tornando-se
algo concreto e literalmente palpável através da invenção ímpar na
história da Educação mundial: o Sistema Braille.
(...)
Causa angústia, no entanto, saber que antes mesmo de terem suas
amplas possibilidades testadas e ampliadas, antes de ser descoberto
na sua plenitude, beleza e eficiência, tal sistema tem sua
utilização ameaçada por um processo que já se pode chamar de “desbrailização”,
que nada mais é que uma corrente de pensamento que prevê a morte do
Braille como recurso educativo e é, em sua etimologia, um paradoxo,
pois não se pode desbrailizar uma sociedade que ainda não é, de
fato, usuária do Braille.
(...)
As tecnologias existem para facilitar a produção de livros em
Braille e não para substituí-lo. Não se trata de uma sacralização do
Sistema Braille. Entendo que na ausência de visão o tato é o sentido
que permite uma maior precisão na aquisição de informações no
universo gráfico. O livro em Braille está para o cego assim como o
livro em tinta está para o vidente, dada a possibilidade de a
leitura acontecer entre leitor e texto, entre toques e relevos,
entre idéia do autor e entendimento do leitor, sem a presença de uma
terceira voz.
(...)
Uma das formas mais prazerosas de aquisição de conhecimento se dá
através da arte, dado seu caráter lúdico e estético. Atividades
artísticas proporcionam o desenvolvimento da capacidade de fazer
análises, avaliações, julgamentos, desenvolvimento de formas
flexíves de pensar, além das noções estéticas e capacidades
artísticas e de expressão de sentimentos, idéias e construção de um
olhar mais rico a respeito do mundo.
(...)
Escrever, além de ter seu caráter social, possui um caráter lúdico
que precisa ser descoberto pelo indivíduo desde cedo. O prazer de
brincar com as palavras, de decodificá-las, de transformá-las
artisticamente deve ser oportunizado ao jovem, independente de sua
condição física ou de sua limitação sensorial. A escola, bem como a
biblioteca, devem ser entendidas como um espaço de convívio de
diferenças, de trocas onde, de forma democrática, jovens e adultos,
limitados em seus aspectos sensoriais, motores, psicológicos ou não,
têm acesso ao saber, que é disponibilizado em forma de texto,
independente do formato: digital, Braille, tinta...
(...)
Por fim, pode-se concluir que investir numa “inclusão ponto a
ponto”, requer a perfeita engrenagem de itens diversos, pessoas com
perfis diferenciados, Porém isso chama à responsabilidade de, numa
luta obstinada, se criar parcerias entre profissionais de diversos
seguimentos, objetivando a consciência de que, desde a infância, o
indivíduo precisa estar em contato com uma leitura apropriada para
sua faixa etária e adaptada para sua condição física. No caso das
pessoas com deficiência visual, oportunizar o contato com livros em
Braille, em formato digital, em áudio e num ambiente que respeite
sua idade. Numa biblioteca, por exemplo, lugar de criança com
deficiência ou não, é no setor infantil, que deverá reestruturar seu
acervo para receber a diversidade de públicos e oportunizar a todas
as crianças, irrestritamente, o acesso aos livros e ao convívio em
uma sociedade plural e não padronizada.
* Fragmentos do artigo Inclusão Ponto a Ponto: A inclusão Social da
Pessoa com Deficiência Visual Através da Produção Escrita produzido
pela Professora Especialista em Educação Especial Patrícia Silva de
Jesus e apresentado no XI Congresso Brasileiro de Educação de
Pessoas Com Deficiência Visual - XI CBEDEV. |
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O Braille e eu: pontos de amor
Por: Patrícia Silva de Jesus*
Movida pelo desejo pueril de modificar o
mundo através do meu compromisso com a Educação, aprendi Braille
sozinha aos 16 anos, quando fazia o ensino médio em uma tradicional
escola de Magistério de Salvador. Nos corredores da escola, nos
intervalos entre uma aula e outra, eu conheci aquela turma de
colegas, pessoas com deficiência visual, que transitavam com
autonomia, utilizando suas bengalas ou acompanhados de outros
colegas “videntes”. Era tudo tão normal! O transitar de alunos para
comprar sanduíches, a paquera entre adolescentes, os risos, as
crises existenciais, as brigas com os professores por causa de
“notas injustas”... Era algo tão cotidiano que, não fosse o detalhe
de os cegos usarem bengalas para se conduzirem com segurança,
ninguém perceberia a diferença entre aquele que tem e aquele que não
tem visão. Às vezes eu notava a falta de visão por que percebia que
determinada pessoa tinha um olhar perdido em algum ponto do
infinito. Este era apenas um dos pontos que eu aprendi a decifrar,
pois cada letra no Sistema Braille pode ter até seis pontos! E foi
neste cenário de descobertas de um mundo inteiramente novo, que eu
me dei conta de que tudo o que eu mais queria na vida era ser
professora em Educação Especial, pois eu precisava oferecer melhores
condições de acesso ao conhecimento a pessoas que tinham uma vida
tão parecida com a minha, mas que eram excluídos do convívio social
pelo fato de não possuírem o sentido da visão.
E foi assim que o Braille entrou
definitivamente em minha vida. O que parecia ser uma paixão
passageira de adolescente se transformou em afeto, em ternura, em
amor. Amor à genialidade de Louis Braille que, há quase 200 anos,
criou um sistema capaz de acionar no cérebro de um cego de nascença
o ponto relativo à visão; amor à causa da Inclusão Social, direito
meu, direito de meu semelhante e pilar de uma sociedade mais
acolhedora. Aprendi Braille para melhor me comunicar com meus amigos
cegos, que me fizeram enxergar meu semelhante como o próprio nome
sugere: alguém que se assemelha a mim. Agora eu não apenas sei
Braille: eu vivo o Braille. Espalho esses seis pontinhos de cultura
por todo lugar aonde vou. Eu escolhi o Braille como meu parceiro e o
Braille me escolheu como sua tiete, defensora, admiradora fervorosa.
Hoje ele é meu instrumento de trabalho, minha ideologia, meu “ponto”
forte, o primeiro a me dar um sobrenome diferente do que ganhei de
meus pais, sim, pois hoje é muito mais fácil alguém encontrar
“Patrícia Braille” que encontrar “Patrícia Silva de Jesus”. É um
casamento de sucesso, com direito a sobrenome e declaração pública
de amor. E já dura há 11 anos...
Salvador, 8 de abril de 2008
Contato:
patriciasbt@gmail.com
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