Patrícia
Silva de Jesus Professora
Especialista em Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva com
ênfase em educação de cegos pela Universidade do Estado da Bahia.
Mãos e olhos
Dia desses eu vi uma comunidade no Orkut para pessoas que possuem a
habilidade de escrever com as duas mãos, os chamados ambidestros. Eles se
vangloriavam de tal proeza.
Quando aprendi Braille, me desafiei a ler com o tato, embora enxergasse.
Sempre disse a meus alunos cegos que ler Braille com as mãos não era um
"bicho de sete cabeças", mas eu mesma não sabia fazê-lo. Então, um dia
fechei meus olhos e fui explorando um lado meu por mim desconhecido: eu
também tenho sensibilidade nestes dedinhos até então "cegos" pela falta de
atenção, fruto de um mundo cujo apelo visual é tão intenso que chega a
diminuir e até mesmo castrar os outros sentidos.
Foi uma experiência engenhosa, difícil, mas deliciosamente prazerosa.
Posso não ser ambidestra, mas sou multisensitiva e, mais importante que
isso, quero ser sensível às necessidades dos meus alunos, sugerindo e
descobrindo junto a eles caminhos por mim experimentados e outros ainda
maiores.
Patrícia Silva de Jesus
28 de abril de 2007
Sobre
celulares em Braille e outros modismos
Desde que Inclusão virou moda,
encontro diariamente pessoas [físicas e jurídicas] com
vestimenta comportamental nem um pouco “fashion”. Vi na internet
uma notícia sobre um novo investimento “inclusivo/informacional”
que seria o Google Para Cegos. Convivendo com pessoas
visualmente limitadas desde 1997, vendo a desenvoltura com que
utilizam o computador [com o auxílio de softwares ledores de
tela] e envolvida na luta em prol de sites e outras mídias
acessíveis a todos [eu disse a TODOS], achei no mínimo um
disparate a construção de um buscador para uso exclusivo de
cegos.
A interface do site se assemelha à
do Google nosso de cada dia, mas a opção de busca de imagem foi
suprimida, para desespero de minha amiga Silvania Macedo,
professora de História que ficou cega aos vinte e poucos anos,
sempre usou imagens nas aulas que ministra para alunos videntes
e usuária assídua da opção de busca de imagens do Google,
necessitando apenas de um profissional para fazer a
audiodescrição dessas figuras. Outra que pode se sentir bem
desamparada pelo Google Para Cegos é Iracema Vilaronga. Ela tem
baixa visão, é mestranda em Educação e consultora de
audiodescrição da Universidade Federal da Bahia, sem falar na
indignação dos outros cegos que são conscientes de que o
universo das imagens pertence a todos.
Ainda não tinha me recuperado do
choque provocado pelo Google e comecei a ser bombardeada com a
mais recente e nada fashion obra da passarela da inclusão: o
celular para cegos. Desisti de encontrar a utilidade desse
aparelho. Trabalho com cegos há muito tempo, a maioria deles
usam celulares convencionais, inclusive enviam SMS com
autonomia, sem a necessidade de inscrições em Braille nas
teclas. Quando penso na quantidade de projetos realmente
importantes que não recebem apoio para serem levados adiante e
vejo uma invenção completamente inútil ser aclamada como veículo
de inclusão social e até ser laureada com um dos prêmios mais
importantes do mundo, fico a me perguntar onde anda o esquecido,
mas indispensável, “Bom Senso”.
Entrevista dada a
Revista Diversidade [Faculdade Cidade do Salvador] pela
Professora Patrícia Silva de Jesus
Ping-pong – perguntas e
respostas
1 – Na sua opinião,
porque existe uma romantização das deficiências?
R – A falta de informação
e o distanciamento das pessoas sem deficiência das que possuem
alguma limitação sensorial, mental ou física, é um terreno
fértil para conclusões precipitadas acerca de como vivem essas
pessoas. Quando acontece o contato dessas duas classes de
pessoas, sentimentos afloram revelando questões muito íntimas
relativas a como os sem deficiência encaram os que possuem
deficiência. Além disso, o sentimento de piedade e a própria
reflexão acerca da situação de fragilidade que a deficiência
impõe, leva as pessoas a criar eufemismos e frases de consolo do
tipo “é melhor não enxergar para não ver as coisas feias do
mundo” ou “ele é especial por enxergar com os olhos do coração”,
como forma de acalmar a profusão de “porquês” que os acometem
internamente.
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As embalagens de
medicamentos terão mudanças para facilitar a vida dos deficientes
visuais
O
LIVRO FALADO E A PRESERVAÇÃO DA SUBJETIVIDADE
Convencionou-se chamar Livro Falado o livro em áudio utilizado para
fins de Educação de pessoas com deficiência visual. Ele se apresenta
em suportes informacionais diversificados, podendo ser encontrado em
K-7 e CD , além de outros formatos mais modernos como o MP3, que
pode ser transportado em pendrives e ipods, e até mesmo ser baixado
pela internet e transportado virtualmente por e-mail.
Confundido muitas vezes com o Audiobook ou Audiolivro [versão de
livro em áudio impregnado de efeitos sonoros, como fundo musical e
vozes dramatizadas] o Livro Falado não é interpretado, não traduz
sentimentos e não pode, em hipótese alguma, ter efeitos sonoros,
pois ele tenta ser uma versão aproximada do livro em tinta. Além
disso, a interferência da sonoplastia artística induz o ouvinte a um
significado que provavelmente ele não teria se o áudio fosse gravado
com a chamada "leitura branca” que, mesmo desprovida de recursos
artísticos e de sonoplastia, obedece às regras da boa impostação de
voz e pontuação, pois parte do princípio de que quem tem de
construir o sentido do que está sendo lido é o leitor e não o ledor.
Fragmento do artigo retirado da fonte:
JESUS, Patrícia Silva de. O Livro Falado e a preservação da
subjetividade. Salvador: [s.n], 2008.
A Inclusão é uma proposta de acolhimento social participado, onde
pessoas com deficiência e sociedade como um todo buscam a eliminação
das barreiras da exclusão que mantinham indivíduos que possuem algum
comprometimento sensorial ou motor separados dos que se enquadravam
no modelo utópico de perfeição. O ato de incluir requer uma postura
revolucionária de uma sociedade que se identifica pela marca da
heterogeneidade e se permite enriquecer com a diversidade.
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Comunicar uma idéia, partilhar
pensamentos, sentimentos, vivências, fazer-se compreendido por seus
pares é uma necessidade humana e, na tentativa de saciar esse
desejo, o homem busca aprimorar seus canais de informação. Como
recurso facilitador da explicação de determinado assunto usa-se
freqüentemente o que os gregos chamaram de Parábola, uma ilustração
literária que estabelece um laço de verossimilhança entre a narração
de uma história fictícia e a realidade a qual ela se relaciona.
Assim, é bastante comum a diversas culturas o homem usar histórias
análogas, parábolas, alegorias, ditados populares, fábulas no
transcorrer de sua retórica.
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Não há dúvidas de que a leitura/escrita é um dos maiores legados da
humanidade. O homem, na tentativa de comunicar-se mais e melhor com
seus pares, criou estratégias gráficas que possibilitavam a troca de
informações, a princípio pinturas rupestres com figuras bastante
rudimentares, chegando à contemporaneidade com os modernos emoticons
da era digital.
(...)
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Movida pelo desejo pueril de modificar o
mundo através do meu compromisso com a Educação, aprendi Braille
sozinha aos 16 anos, quando fazia o ensino médio em uma tradicional
escola de Magistério de Salvador. Nos corredores da escola, nos
intervalos entre uma aula e outra, eu conheci aquela turma de
colegas, pessoas com deficiência visual, que transitavam com
autonomia, utilizando suas bengalas ou acompanhados de outros
colegas “videntes”. Era tudo tão normal!
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