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Fui
percebendo ao longo dos anos a necessidade de um aprofundamento
teórico em meus conhecimentos musicais, de poder analisar os
aspectos formais da linguagem, sobretudo da semântica. Isto
posto uma vez que pude dialogar com um educador sobre o processo
de composição das “QUATRO ESTAÇÕES” de Vivaldi. Que maravilha!
Quando ia percebendo nas composições mais simples quão grandioso
era o leque de interpretação das mesmas, de músicas como
“PULSAR” de Caetano Veloso e como não dar aula de FRAÇÕES EM
MATEMÁTICA podendo ouvir a flor da pele os intervalos das
batidas do coração, como na ESCALA DE PITÁGORAS, instrumento
ímpar para o processo de aprendizagem da quarta operação.
Por que as escalas musicais são como as conhecemos?
Na tentativa de responder questões como esta, na expectativa de
um diálogo mais atraente e inclusivo na escola, quero tentar
buscar e sistematizar momentos importantes que revelam a relação
de intimidade entre matemática e música, por exemplo, ou entre a
prática docente e a música.
Mais recentemente, sabendo da teoria de Inteligências Múltiplas
, de Habilidades e Competências , onde já temos uma vasta
literatura, tive que buscar essa ponta de esperança de
aprendizagem daqueles alunos alheios a matemática somente nos
quadros e giz. Aquelas cabecinhas pensantes tinham caminhos
múltiplos, bastava um toque “mágico” em uma de suas portas, a
porta da música, que nunca estivera adormecida, escancarada a
todo o tempo, na cara do professor. Que falta de sensibilidade!
Porque não contextualizar a matemática em sala de aula? A música
é um caminho perfeito.
Outro fator que vai justificando esta minha escolha foi um
excelente trabalho desenvolvido por uma de minhas professoras no
meu curso de Pós-graduação, Eliane Gazire . Neste Curso de
Educação Matemática tive o privilégio de conhecer sobre um pouco
da cultura indígena e africana no mundo. Somei a este curso,
outro oferecido pela FACULDADE DE MÚSICA DA UFMG - “Construção
de Instrumentos de Percussão com Materiais Alternativos e sua
Aplicação Pedagógica”. Fiz um excelente trabalho em uma das
Escolas que leciono, ensinando matemática e fabricando
instrumentos ao mesmo tempo como, afoxés, maracás, maracas,
ganzás, maculelê, pau-de-chuva, flautas-pam, tambores dos mais
variados tipos, etc. Isto para mim, de uma certa forma foi
positivo, porque quando foi procurar saber das disciplinas que
seriam ministradas neste Curso de Mestrado, percebi a relação do
trabalho com ETNOMUSICOLOGIA, SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO MUSICAL,
ESTUDOS SOBRE AS PRÁTICAS MUSICAIS E SOCIEDADES etc.
Conheci o vasto mundo da prática musical de VERGÍLIO LIMA, um
exímio luthier com quem fizera um curso de Fabricação de
Instrumentos de Corda. No decorrer do curso foi sabendo dos
passos sonoros dos outros integrantes podendo aprender cada vez
mais. Um aprendizado importante, mas que, revitalizar-se-ia num
contexto do conhecimento formal rebuscado através da pesquisa.
Há de se justificar esta escolha também, pela busca ao
conhecimento do outro, do ser humano, através de sua
musicalidade. A importância de saber das influências musicais
como prática pedagógica.
A presença do professor na escola não pode se limitar à
transmissão de breves conteúdos às vezes distantes da realidade
dos alunos que lá freqüentam em busca de algo maior que isso.
Sinto que nosso corpo discente quer ser ouvido a todo o momento,
no entanto, se faz o foco da atenção a qualquer custo.
Todo
segmento das Escolas precisa entender um pouco mais sobre o
estudo da música, conhecer mais da musicalidade em nossos
alunos, para que não cometam erros que deixem seqüelas
irreparáveis. Tenho que fomentar esta necessidade de pesquisa
para mostrar aos educadores a importância do ensino de música
nas Escolas, quero contribuir para isso. Não desejo me deparar
com cenas freqüentes em minha vida de educador como a de
professores e direção de escolas chamando alunos de
indisciplinados pelo simples fato de levarem instrumentos
musicais para escola.
Ao optar por essa linha de pesquisa, pensei na educação musical
nas escolas como ato formalizado que integre realmente o
currículo e essa ação é ímpar na contribuição para área da
música. Novas oportunidades se abrirão para que os jovens e
adolescentes tenham uma visão ampla de suas possibilidades de
crescimento pessoal e investimento por essa arte num contexto
mundial e não num território restrito.
Um outro fato que justifica minha escolha é que quando iniciamos
qualquer trabalho de pesquisa nas favelas, bairros, regiões das
escolas, zonas rurais, logo temos claro um problema. Nos
trabalhos de campo, por exemplo, a comunidade é envolvida e tem
contatos por um bom período com os pesquisadores que publicam
seus trabalhos e aqueles nem sequer sabem do que ocorreu no
final das atividades. Estudar a prática musical de uma
comunidade e dar retorno dessa pesquisa é de fundamental
importância na melhora da auto-estima dessas pessoas, é
torna-los protagonistas de suas histórias de vida.
Despertei-me no sentido de ter observado em muitas pessoas o uso
da matemática e a música em sua vida diária, alguns, às vezes,
nunca tinham freqüentado uma escola. Foi surpreendente perceber
que esse conhecimento é muito mais profundo que eu imaginava. Ao
criar o solo de uma música, numa simples rabeca, o caipira pode
estar utilizando conceitos de frações e escala de Pitágoras.
Fiquei boquiaberto quando vi um desses homens que já tinha uma
boa trajetória em seu empirismo musical, separando as chaves que
usava em seu trator, pelas polegadas, criando assim uma espécie
de xilofone e executava algumas melodias ali na hora.
A etnomatemática já não é mais novidade, existem pesquisadores
envolvidos neste tema como, Eduardo Sebastiani Ferreira . Trazer
este conhecimento tendendo vincula-lo à pesquisa em referência,
sobretudo na disciplina de etnomusicologia acredito ser uma
forma de contextualização da matemática no dia a dia. Por
exemplo, a escola está inserida numa região de luthiers. Podemos
extrair daí problemas como, tipo de madeira a ser usado, tipo de
cola, quantidades, dosagens, como construir uma escala, qual o
tipo de construção mais adequado, espessuras, além de outros
conhecimentos, é necessário usar matemática e música. O educador
da escola, então, entra com a parte técnica, o conhecimento
necessário na resolução dos problemas. As soluções encontradas
serão revertidas em benefício dessa comunidade.
Pautarei
meu estudo dando relevância ao resgate das tradições na escola
de hoje sem perder de vista a diversidade cultural e os costumes
locais, e como já mencionara em parágrafos anteriores; essas
influências interferiram em minha atuação como educador e,
simultaneamente, outras práticas musicais se consubstanciaram em
minha formação.
Lázaro Mariano Alves
Professor de matemática e músico |