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CONGOS DE GUERRA – TABUÃO – CEARÁ-MIRIM – RN

“A tradição é uma experiência humana, que vai do passado ao futuro e é sempre presente, atual e viva, um elo de continuidade, que caracteriza toda a existência humana. Importa não a velhice, mas a aceitação coletiva, que tudo atualiza”.

Almeida (1971)
Gibson Machado Alves
Professor de Arte e pesquisador

“A história é tão boa que toda jornada tem a passada. A passada do Congo, toda pisada quem dá é a língua. Se o cabra não tiver a língua num pode dançar, porque ele não sabe cantar”.

Tião Oleiro – 94 anos de cultura popular (2007)
      

O presente relatório foi elaborado através de investigações realizadas, entre os dias 10/07 e 31/08, e tem como objetivo registrar essa expressão cultural existente no distrito de Tabuão, município de Ceará-Mirim/RN.

Antes que a dança passasse a ser uma expressão lúdica do homem, ela era um ritual sagrado, forma pela qual nossos antecessores agradeciam os favores dos deuses na vida diária.

O folclorista Edson Carneiro (1974), em “Folguedos Tradicionais” credita a diversos motivos e inspirações a origem de nossas danças folclóricas: a luta contra o infiel, a tragédia do mar, o nascimento de Cristo, morte e ressurreição. Afirma o autor que o motivo/inspiração dos congos se encontra na luta do bem contra o mal.

Conforme a história registra, a península Ibérica esteve durante séculos sob o domínio dos Mouros, oriundos do norte da África. Adoradores de Maomé, fora pelos cristãos denominados de “infiéis”. Foi contra eles que lutaram os portugueses e espanhóis, até expulsá-los completamente da península. São essas lutas que se refletem em algumas de nossas danças folclóricas brasileiras, como a Chegança de Mouros, no Nordeste; as Cavalhadas em Goiás, particularmente em Pirenópolis e as Congadas, principalmente no Centro e Sul do país.

O registro deste grupo possibilitará contribuir com a geração futura do município de Ceará-Mirim e do estado do Rio Grande do Norte, no sentido de que esta possa ter acesso com mais facilidade a informações do folguedo popular dos Congos de Guerra, e assim venha conhecer a manifestação cultural e possa colaborar com a sobrevivência do grupo.

O folguedo popular Congada sobressai na atualidade. Prova disso são as suas freqüentes apresentações em festivais, exposições e demonstrações do gênero artístico em alguns estados brasileiros.

Procuramos recolher dados sobre a formação social do grupo e sua tradição local. Desta forma temos como objetivos específicos perceber como o grupo é organizado e suas dificuldades de existência, conhecer o que se preserva e o que já foi substituído dentro do grupo, sua organização, e se o revigoramento levou a tais transformações.

Pensar sobre a existência do Congo de Guerra no município de Ceará-Mirim/RN nos leva necessariamente a refletir sobre a conceituação de tradição, fazendo com que este conceito seja o viés que nos ajude a compreender a sobrevivência e a dinâmica do folclore na sociedade contemporânea.

2. DESENVOLVIMENTO

Histórico:

A origem do Congo segue de 1482 com o Império do Congo, um dos Impérios negros mais importantes de todos os tempos. O contato com Portugal fez esse Império ruir pouco a pouco, até sua decadência total, que se deu através de uma grande guerra contra o Império de Portugal. Ficando assim o Título de Rei de Congo equivalente ao poder do povo negro que lutou bastante contra Portugal. No Brasil está presente desde os tempos da escravidão, quando os negros passaram a estimar ainda mais sua força.

No Brasil Colônia e Império não eram somente figuras ornamentais, como alguns o encaravam. A sua função era muito séria, consistia em interceder junto aos outros negros como maior membro da irmandade, essas intervenções consistiam em organizar os negros, e muitas vezes liderar rebeliões, que eram caracterizadas pelas batalhas e jornadas.

Essas batalhas aparecem juntamente com parte do Congo em algumas Regiões do Brasil, em outras aparece como um auto separado com um nome distinto: Congada. É originária de fatos Históricos de duas naturezas:

A primeira:

Mais antiga, refere-se às batalhas e embaixadas trocadas pelos antigos Reinos do Congo e de Angola, no tempo da Rainha Ginga e do Rei Henrique Cariongo.

Tem seu conflito central no típico mito-herói africano: morte e ressurreição.

A segunda:

Introduzida pelos missionários cristãos, tem como referência a lenda de Chanson de Roland, epopéia nacional francesa que descreve a batalha de Roncesvales, ocorrida há mais de mil e duzentos anos, nas proximidades entre a atual fronteira da França e Espanha.

Considerada uma das mais conhecidas manifestações de cultura popular do Brasil, os Congos conjugam fé, devoção, festa, dança e metáforas sobre a realidade social.

Realizadas sempre em louvor a São Benedito ou Nossa Senhora do Rosário, Santos protetores dos negros. Inicialmente a participação era, em sua maioria, de descendentes de escravos. Negros devotos que dançavam ou participavam das embaixadas ao Rei Congo.

Segundo CASCUDO (1946), na África, no século XVI, por misteriosa causa, desencadeia-se um movimento de povos fortes, derrubando reis, queimando aldeias e conquistando regiões. A rainha Jinga é filha dessa gloriosa violência. O rei Matamba Ngola-Zinga, é o pai de Ngola Jinga. O rei morre e o irmão de Ngola Jinga herda o reino. Ela fica isolada, à parte, amando seu filho único, vigiando seus pastores, guardada pelos guerreiros familiares. O rei quer as terras da irmã, e para que não haja sucessão, manda matar o jovem sobrinho. Jinga recebe o cadáver e jura morte-por-morte. Reúne um pequeno exército, assalta a fronteira do reino de seu irmão, apoderando-se de gados, mulheres, rapazes, semeando prestígio ameaçador. Depois de muitas batalhas o rei Cariongo, é derrotado e foge para uma ilha onde morre envenenado. Aclamada Rainha, Jinga atraiu o filho do morto, o sobrinho detestado. Recepcionou-o alegremente e apunhalou-o sem perder tempo, vingando o filho.

Instalou-se como uma soberana autêntica, na legitimidade de todas as tradições africanas, luxos, armas, festins e invasões de fronteiras. Não era portuguesa e nem católica. Era uma rainha africana livre para escolher o seu senhor.

Morreu a 17 de dezembro de 1663. É a única soberana de toda a África que sem saber da existência do Brasil, continua na memória brasileira. Nos Congos e Congadas pelo Nordeste aparece seu nome soberano dispondo das vidas, determinando guerras, vencendo sempre.

Em algumas Congadas as batalhas são travadas através de diálogos desafiadores agressivos em forma de versos, ditos pelos participantes e pela simulação da guerra. As falas são entremeadas por passos de dança, evoluções com espadas e lanças ao sons de atabaques, chocalhos, acordeon e outros instrumentos.

Além dos congos de Tabuão em Ceará Mirim, muitos outros congos ainda resistem ao tempo com toda sua tradição, fé e magia em meio ao sagrado e o profano, num louvor a São Benedito. Aqui vamos registrar alguns deles:

· Congada Lapeana (Lapa – PR): Os congos se apresentam em frente ao santuário de São Benedito, e tem como personagens o Rei, a Rainha, o Embaixador, Fidalgos, Duque, Cacique, Secretario, Guias, Conguinhos e os Músicos. Os congos da Lapa mantêm um respeito ao rei mesmo em situações que não envolvem a congada.

· Congadas de Atibaia (Atibaia – SP): Durante as festas de Natal ou também na chamada festa do Rosário, os congos seguem em cortejo pelas ruas da cidade e concentram seus festejos principalmente no largo do rosário, situado em frente à igreja do mesmo nome. Cada grupo de congo pode denominar-se terno (também chamados Batalhões de São Benedito), há atualmente quatro Ternos de Congos e cada um é caracterizado por uma cor. São organizadas as cores nos seguintes batalhões: Batalhões de São Benedito, Terno Verde, Terno Rosa e Terno Vermelho; Batalhão de N. S. Aparecida, Terno Azul; além das figuras do Rei e da Rainha, caracterizados de branco.

· Congada Mineira de Itapira (Itapira – SP): Com integrantes em sua maioria sexagenários, pois é cada vez mais difícil manter a tradição de pai para filho, se apresentam na véspera do dia 13 de maio no largo de São Benedito, em frente à igreja de mesmo nome e tem como mestre Arnaldo França, 67 anos.

· Congada São Benedito (Machado – MG): Fundada há mais de sessenta anos, tem por mestre José Jair Miguel, 57 anos, também se apresentam no largo de São Benedito em Itapira - SP. O fervor do agradecimento destes congadeiros promoveu, à revelia do Vaticano, a canonização da princesa Isabel (“a mãe preta abençoada” como está nas canções).

· Congos de Calçolas da Praia de Ponta Negra (Natal – RN): Apresentam-se no bairro de Ponta Negra e organizam seus personagens em seu cortejo da seguinte forma: Primeiro o Espontão; em segundo no centro o Rei e Rainha, atrás deles o Mestre e o Contramestre; em terceiro de cada lado, os embaixadores; em quarto vão ao lado do cortejo os músicos, a banda cabaçal e o violeiro.

Estes são apenas alguns, em meio a tantos congos, da nossa bela e rica cultura popular.

Os congos aqui no estado do RN, segundo Deífilo Gurgel (1999), tem por motivo a representação de uma embaixada da Rainha Jinga, soberana africana, ao rei Henrique Cariongo, seu irmão.

OS CONGOS DE GUERRA


Em 10 de julho de 2006 foram iniciadas as entrevistas com o Sr. Sebastião João da Rocha, o Tião Oleiro, Mestre do Congo e José Baracho, embaixador do Congo. A entrevista foi realizada com questionamentos livres onde os componentes do grupo responderam de maneira clara, demonstrando muito interesse e satisfação em nos passar informações de sua origem e de sua continuidade. Notávamos que quando falavam, se sentiam muito importantes, principalmente porque sabiam que estavam transmitindo informações e ao mesmo tempo nos passavam ensinamentos de grande importância para o seu grupo.

De acordo com os entrevistados Os Congos de Guerra de Ceará-Mirim, tem sua origem, no Ceará, quando no final do século XIX, um ex-cativo chamado Pedro Mascenas, chegou em Ceará-Mirim vindo de Fortaleza. Inicialmente, os congos eram grupos de brincantes que animavam as festas nos engenhos de açúcar, em louvações a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário ou, na ausência dos santos, as faziam onde havia Santa Cruz.

Esses congos, anteriormente, se apresentavam de saia, blusão, gorro de papelão na cabeça e enfeites de cordões de contas no pescoço.

O mestre do antigo Congo era João José da Rocha, agricultor e operário do Engenho Guanabara. A brincadeira foi desenvolvida para alegrar e festejar as festas e benditos realizados na região dos engenhos. Em pouco tempo a dança tinha se espalhado por todo o vale de Ceará-Mirim.

O folguedo foi apresentado durante muitos anos, até que o mestre resolveu que não tinha mais condições de mantê-lo e por falta de substituto, o grupo se dizimou.

Em 1934, com o afastamento do Sr. João José da Rocha, o mestre dos congos de saia, seu filho Sebastião, resolve brincar novamente os congos, então juntamente com mais 18 rapazes da comunidade de Guanabara, resgata o auto e coloca o nome de “Congos de Guerra”, uma homenagem aos soldados mortos na revolução constitucionalista na década de 1930.

O congo sofre algumas transformações em suas canções. Anteriormente faziam referências às batalhas realizadas na África ou Europa durante a Idade Media e a partir na nova formação as mesmas passam a relatar, também, fatos de marinheiros e batalhas, embora as embaixadas principais, ainda sejam músicas do congo antigo.

São formados por um mestre, um embaixador, um rei, uma rainha e os marujos que usam espadas de madeira para encenarem batalhas. Os marujos formam filas separadas, nas cores azul e vermelha, provavelmente uma referência a luta dos mouros e cristãos.

No que se refere às danças os congos de guerra em geral dispõe em duas colunas e doze linhas para organizar os participantes.

Um terno de “brincantes” nos congos não é um simples agrupamentos de dançantes, capazes de tocarem instrumentos e cantarem algumas músicas, enquanto executam passos de uma coreografia simples também e repetitiva.

A coreografia dos dançantes de um terno de congos é muito simples. Os passos dados por um brincante não são nunca improvisados ou isolados. A um só tempo todos fazem os mesmos movimentos de corpo e de passos. Estão ligados à música e a todo ritual como marcha, contramarcha, mudança de direção, agachamentos, batidas de espadas entre os marujos, principalmente na prisão do embaixador, quando esse desafio é bem expressivo entre o embaixador e o mestre.

As embaixadas e jornadas são controladas pelo mestre, que as organiza através de um apito e os marujos levam uma espada de madeira, para a simulação de batalhas. Ás vezes as espadas são substituídas por maracás feitos de zinco.

A embaixada é uma dramatização em que alguns personagens dialogam em tom de luta, principalmente entre o mestre, o rei e o embaixador. Por exemplo, quando o embaixador é preso, eles encenam a música, como segue abaixo:

Tô preso nesta cadeia,

Num é por matar ninguém,

O maior crime que levo,

É de amar e querer bem.

Tô preso. Ê rei de gado.



A _____ que no canta,

O que além de cantar

Tô preso não tenho culpa,

Só canto pra me alegre

Tô preso. Ô rei de gado, ô rei cruel.

Tô preso nesta cadeia,

___________ pape

Se hoje quem me prendeu,

Só solta quando quiser.

Tô preso. Ô rei de gado, ô rei cruel.

Me vala Nossa Senhora

A Virgem da Conceição,

Foi o rei que me prendeu

Me solte dessa prisão.

Me vala Nossa Senhora

A Virgem da Conceição,

Foi o rei que me prendeu

Me solte dessa prisão.

Estrada do céu de todo o meu coração,

Estrada do céu de todo o meu coração.

Onte tava no inferno hoje tô no meu cordão

Onte tava no inferno hoje tô no meu cordão

Lá chegou meu capitão, lá chegou meu capitão

Lá chegou meu capitão, lá chegou meu capitão

Toma conta do exército e governa o batalhão.

Toma conta do exército e governa o batalhão.

As músicas cantadas estão ligadas aos rituais, porém, algumas aparecem apenas em momentos específicos, como por exemplo quando eles estão chegando para a festa.

Ô lê lê rôôôôô, Ô lê lê rôôôôô,

Ô lê lê rôôôôô, Ô lê lê rôôôôô.

O anau do meu monarca não se vende sem dinheiro.

O anau do meu monarca não se vende sem dinheiro.


Vamo para a Turquia, vai morrer prisioneiro.

Vamo para a Turquia, vai morrer prisioneiro.


Acorda alerta quem dorme na serena madrugada.

Acorda alerta quem dorme na serena madrugada.


Vamo vê nosso rei de Congo, general de nossa armada.

Vamo vê nosso rei de Congo, general de nossa armada.


As músicas são acompanhadas por sanfona, violão, pandeiro, triângulo e maracá, antigamente eram acompanhadas principalmente pela rabeca, hoje já não se encontra quem toca este instrumento facilmente.

A dança no congo representa um fator de comunhão cultural, transmitindo idéias e costumes de uma geração a outra, sobretudo nas formas folclóricas. Baseado-se em tradições (lendas, cerimônias religiosas, episódios da comunidade) essas formas prolongam no tempo o espírito de comunidade, donde incorpora-se a festas populares.

Os congos se dispõem em duas colunas, de doze filas para organizar todos os participantes. As colunas e filas não possuem rigidez de linhas.

Geralmente as danças envolvem os passos característicos, bem como uma coreografia simples, além do envolvimento da espada que se torna um objeto importante da dança. As coreografias estão ligadas diretamente às músicas e a todo o ritual..

Normalmente o passo é executado saltando, quando se transfere o peso do corpo para cada perna que não está apoiada no chão no momento do salto.

No dia 29 de julho de 2006, foi realizada uma apresentação na comunidade de Tabuão, com o objetivo de vivenciar e registrar as evoluções dos Congos de Guerra.

Foram tocadas algumas jornadas que eram acompanhadas por violão, pandeiro, zabumba e triangulo. O grupo estava formado por 24 marujos, o embaixador, o mestre e a rainha que portava o estandarte dos congos. Durante a apresentação foi realizada uma embaixada que é a dramatização da prisão do embaixador pelo Rei de Congo, nesta encenação o embaixador é preso e em seguida, o rei se arrepende, e manda soltá-lo, passando novamente o comando de suas tropas para o mesmo.

É interessante como um evento desta natureza pode influenciar na decisão de jovens da comunidade, com relação à participação no grupo. Quando estávamos terminando as apresentações, podemos testemunhar o interesse de um jovem da comunidade em participar da brincadeira.

A preocupação do Mestre Tião é passar seus conhecimentos para a juventude, o que o torna um abnegado, uma vez que as crianças e adolescente da comunidade não se interessam pela tradição, no entanto sua insistência tem atraído crianças a fim de aprender o brinquedo.

Dessa forma o grupo está se transformando, estando atualmente formado por crianças e adolescentes da comunidade, notando-se, assim, a preocupação com a preservação da tradição, uma vez que o Mestre Tião e o embaixador José Baracho estão com idade avançada, 94 anos e 78 anos respectivamente.

3. CONCLUSÃO

O Registro dos Congos de Guerra foi progressivamente mostrando um verdadeiro encontro com tesouro da história potiguar. A própria forma de estudo nos encaminhou para um trabalho que se ampliou e abriu espaço em nós, para uma identificação com o folguedo. Nos percebemos portugueses, espanhóis, africanos; católicos, mouros; divinos e profanos; guerreiros e pacificadores.

Um combate civilizado é travado nos Congos de Guerra, onde as armas são encontradas no domínio das palavras e da argumentação inteligente e espirituosa dos rivais ate chegarem num diálogo conciliador, seguido de comemorações. A realidade representada reflete a vida conflituosa do homem em busca continuada da felicidade. Vermelho de um lado e do outro o azul, seu oponente: a luta ente o prazer e a morte. As espadas estabelecem os limites, que devem ser respeitados, em meio às argumentações inflamadas dos lideres combatentes. Surge, no entanto, a necessidade de encontrar a harmonia entre estes dois movimentos antagônicos.

Como resolver o conflito cujas às forças hegemônicas se aproximam? Diante desta provocação a presença da Rainha Ginga, única presença feminina no Congos de Guerra, é fundamental. Encanta a todos com sua altivez, beleza e senso de justiça. É conciliadora e maternal, propõe que vivam os dois reinos em harmonia. Ginga, assim como a nossa majestade, Mãe Terra, clama pela paz entre os homens. Ao contrario de nosso planeta, o planeta Congo celebra o fim da guerra.

O folguedo de Ceará Mirim conta uma história real e seus personagens são reais. Ao narrar a história do Congo, o mestre Tião Oleiro falava com convicção, de um fato que ele viveu com seus amigos brincantes, não foi algo que ele ouviu contar. - “Pode escrever”, dizia ele ordenando com o dedo. A história do congo que se confunde com a história de vida dos antigos moradores da localidade. Identificações, projeções, resolução de problemas; integração, espírito de grupo, respeito; momento de reafirmação do pacto social, momento de reflexão dos valores e da tradição; ou simplesmente um encontro com a alegria. Vindo de outras terras pelas mãos dos migrantes ou brotando da memória coletiva de um povo, as festividades culturais sempre exerceram o trabalho de aproximação entre os povos, podemos até, por este viés, dizer que trás em si um movimento de globalização. Pela contra mão, em nome de um mundo sem fronteiras, um outro tipo de globalização tem sido defendida por uns tantos embaixadores ególatras separaram os costumes do homem em duas vertentes: no que conceituam como cultura (saberes, valores construídos pela classe dominante) e todo o “resto” como a falta dela. Nesta forma distorcida de conceber a cultura, associada à incorporação do capitalismo, referência do atual modelo de globalização, a cultura passou a ser tudo aquilo que pode ser consumível.

Quando conversamos com os membros do grupo, percebemos que trazem em suas relações conflitos de gerações novas e antigas. Os componentes mais novos, muitas vezes não concordam, com os mais antigos, principalmente quando as discussões dizem respeito à organização e manutenção do grupo.

Os mais velhos acham que os jovens, hoje, estão relaxados e não se interessam muito com a continuidade do grupo, não querem aprender e na maioria das vezes não participam das brincadeiras.

Outro fator que dificulta consideravelmente a manutenção do grupo é o fato de que os componentes não têm condições financeiras para manter as despesas.

Apesar de tudo isso, o folguedo ainda preserva alguns aspectos tradicionais de sua musicalidade e expressão corporal.

Podemos observar o envolvimento da comunidade com relação à tradição do congo, principalmente, quando o jovem perguntou ao mestre como poderia entrar para o grupo, isso nos leva a concluir que se houver apresentações com mais freqüência, as pessoas da comunidade irão se interessar e poderão dar continuidade ao folguedo.

Faz-se necessário, também, que os poderes públicos interfiram, com relação à manutenção, fortalecimento e divulgação do grupo.

4. BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Teodor. Teoria da semicultura. Educação & Sociedade, ano XVII, nº 56, dezembro/96. Artigo.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A festa do santo preto. Rio de Janeiro. FUNARTE. Instituto Nacional do folclore. Goiânia. Universidade Federal do Goiás, 1985.

CARNEIRO, Edson Carneiro. Folguedos Tradicionais. Conquista, RJ, 1974.

CASCUDO, Luis da Câmara. Made in África. Rio de Janeiro. Editora Civilização Brasileira, 1965.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

GIRARDIELLI, Élsie da Costa. Ternos de Congos: Atibaia. Rio de Janeiro. Instituto Nacional do folclore, 1981

GURGEL, Deífilo. Espaço e tempo do folclore potiguar: folclore geral: folclore brasileiro. Natal/RN: Pref. De Natal. FUNCART. SÉC. 4º centenário, 1999.

MCLAREN, Piter. Multiculturalismo crítico. 3 ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2000. (Coleção Perspectiva, v.3).

SANTOS, Ilka d`Almeida, GARCIA, Rose Marie Reis. Preparo básico para pesquisa folclórica. Porto Alegre. Ed. Universidade do Rio Grade do Sul, 1983.