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Introdução a Terapia de Vidas
Passadas
Desde que médicos e psicólogos começaram a usar a
hipnose em seus pacientes, e pediram-lhes que fossem até as origens de seus
problemas, muitos desses profissionais se depararam com alguns enigmas que lhes
pareciam no mínimo estranhos. Alguns de seus pacientes
começavam a relatar aos médicos aquilo que emergia em suas consciências. Nesse
momento, eles relatavam cenas de um passado remoto e citavam situações em épocas
históricas variadas, com cenas de experiências que jamais tiveram em suas vidas.
Alguns citavam guerras,
catástrofes, assassinatos; outros contavam situações sem muita novidade, como
estando em meados do século XV na Europa e sendo apenas um servo ou um escravo.
A maioria destes pesquisadores atribuíam estas visões à fantasias e à imaginação
de seus pacientes. Outros, no entanto, em menor numero, começaram a investigar a
origem e a motivo destes relatos. A partir destas pesquisas, surgiram algumas
formulações sobre a regressão de memória, que posteriormente veio a ser
chamada de Terapia de Vidas Passadas.
É curioso reconhecer que a chamada Terapia Regressiva
a Vidas Passadas não foi formulada apenas por um homem. A Psicanálise foi quase
inteiramente codificada por Sigmund Freud, médico neurologista alemão, e foi
posteriormente ampliada por seus discípulos e outros psicanalistas de renome, e
continua sendo modificada e expandida até os dias de hoje. A chamada TVP,
Terapia de Vidas Passadas, por seu lado, não reconhece nenhum “grande
sistematizador” ou “codificador”, tal como Freud, que lançou
as bases de uma teoria e deu-lhe a forma e o conteúdo.
As técnicas regressivas de vidas passadas não se enquadram em tal padrão pelo
simples motivo que ela foi mais uma descoberta do que uma criação. É certo que
toda sistematização é ao mesmo tempo uma criação e uma descoberta, em maior ou
menor grau para cada um destes aspectos. Porém, a TVP foi sendo descoberta em
pontos diferentes do globo, por cientistas diferentes, e foi recebendo formatos
diversos no século XX. Sem dúvida alguma, as técnicas usadas na TVP não tiveram
origem no tempo, não tem um inicio, uma seqüência temporal de descobertas até
atingir um ápice teórico.
A fenomenologia da TVP é um processo natural, faz parte do próprio funcionamento
dos seres humanos. Nos templos da Atlântida, do Egito, da Índia, da Grécia, do
Tibet, da China, da Pérsia, dos celtas, dos Caldeus, etc, ela foi muito
utilizada. Sua eficácia é há muito conhecida pelos iniciados de todos os tempos.
O que ocorreu ao longo das ultimas décadas é apenas uma redescoberta de um
conhecimento há muito praticados nas chamadas “escolas de mistério”
ou “Ordens Iniciáticas” de todos os tempos. Teremos oportunidade de
retornar a esse assunto em temas futuros.
Neste artigo, procuraremos esclarecer alguns pontos fundamentais sobre a Terapia
de Vidas Passadas, desenvolvendo o tema e abordando vários de seus aspectos
filosóficos, terapêuticos e técnicos, além das várias teorias que tentam
explicar a fenomenologia da técnica. Começaremos dando uma definição geral sobre
TVP, dentro dos limites de nosso conhecimento, lembrando sempre que a TVP é
maior do que supomos e até mesmo do que podemos supor. Sua abrangência revela
temas que ainda nos são desconhecidos, e nesse sentido, qualquer definição que
procure abarcar todos as suas variáveis será necessariamente incompleta. O
conhecimento humano sobre as várias nuances dos planos sutis e do universo
espiritual ainda se constituem como um mistério para o ser humano. Porém, nos
últimos tempos nosso conhecimento evoluiu um pouco, mas todo
pesquisador de bom grado deve admitir que o alcance de nossa visão ainda é
exíguo perante o potencial que se nos apresenta.
A TVP, mais conhecida como Terapia de Vidas Passadas, foi nomeada de Terapia de
Regressão num Congresso Mundial, e este nome tem sido utilizado por grande parte
dos profissionais que atuam na área. Porém, como nossa intenção é definir a
natureza de nosso trabalho,
ainda estaremos dando preferência ao termo “Terapia de Vidas
Passadas”, pois estamos convencidos da realidade e veracidade da teoria da
reencarnação, mesmo que esta teoria esteja sujeita a variações de conteúdo
dentro de segmentos espiritualistas e místicos diferenciados. Isso não
significa, no entanto, que desprezemos as outras explicações sobre a natureza e
origem dos conteúdos resgatados numa sessão regressiva. No entanto, a
experiência demonstra que existem razões sólidas e consistentes para aderirmos a
hipótese das existências pretéritas, mesmo que isso vá de encontro à crença de
grande parte da população ocidental, orientada sob os critérios do cientificismo
acadêmico e do cristianismo ortodoxo.
Vamos lidar um pouco com a definição da Terapia de Vidas Passadas. Em nossa
visão, podemos considerar a TVP como uma teoria, método, técnica e abordagem
terapêutica fundamentada na hipótese do regresso ou acesso à conteúdos que
transcendem a memória imediata e ordinária, direcionando a consciência para uma
instância inconsciente onde estão gravados registros
nemônicos, informações, afetos, crenças, sentimentos, etc que influenciam na
personalidade atual do individuo, afetando sua integridade física, emocional,
mental e espiritual.
Neste caso, a pessoa submetida ao procedimento regressivo deve revivenciar os
fatos e eventos
experimentados no passado, e deve faze-lo de forma tão vívida possível,
atravessando a situação de forma tão real e intensa quando o evento original.
Dessa forma, sua consciência poderá reprogramar essa memória, e obter um
controle consciente sobre a vivência. Neste caso, o cliente realizará a chamada
catarse, que implica numa descarga de energia emocional e psíquica que estava
associada ao fato ou evento traumático.
Dessa forma, a Terapia de Vidas Passadas tem como um de seus principais
objetivos a catarse, ou seja, com a descarga de emoções, afetos e energias
psíquicas.
Estas "cargas" não foram apenas "reprimidas" pelo ego, como declara a teoria
psicanalítica. Quando observamos pessoas que se submetem a uma regressão de
memória e entram em contato com uma vida passada, elas experimentam períodos
longos de repetição de comportamentos, e essa continuidade acaba gerando
impressões fortes na consciência daquela personalidade, que se repercutem nas
vidas subseqüentes. Na verdade, em TVP consideramos que todos os conteúdos
psíquicos que hoje são inconscientes, num determinado momento foram conscientes.
Através de uma escolha consciente, decidimos nos fechar para aquela experiência,
e dessa forma, definimos nosso destino e os acontecimentos futuros.
Outro objetivo da TVP é buscar o conhecimento do passado e a partir das
informações acessadas,
estabelecer uma relação de causa e efeito entre o que fizemos no passado e o que
ocorre no presente. No entanto, é preciso não confundir as coisas. Nosso passado
é o reservatório de nossas experiências e sem ele, não teríamos base para
avaliar o presente e fazer uma projeção sobre nosso futuro. Tudo o que nosso
passado revela é importante como referencial em nossa vida. Todas as situações
devem nos trazer aprendizado, pois só assim o homem poderá deixar de cometer os
mesmos erros que cometeu em outras épocas.
A TVP é sem duvida, um marco teórico para a Psicologia e a Espiritualidade. É
uma corrente, uma linha, que vem trazer a síntese entre a teoria da Transpessoal
associada à prática clínica, com excelentes resultados para quem a procura.
Desde o seu surgimento, e não poderia ter sido diferente, a Psicologia tomou um
modelo materialista e cientificista, procurando tornar sua linguagem e seus
métodos tão próximo quanto possível das ciências exatas. No inicio do século XX,
a ciência cartesiana e newtoniana estavam em alta e qualquer conhecimento que
requeresse o status de
“ciência” deveria necessariamente adequar suas características a
metodologia das ciências naturais, que consistia e ainda consiste numa
metodologia analítica e empírica.
Como tudo na natureza é passível de transformações, as estruturas teóricas que
foram construídas nesta época foram aos poucos sentindo a força inexorável
espírito humano no impulso de evoluir e ir além do já conhecido. Os pilares da
ciência newtoniana e cartesiana começaram a ruir com algumas descobertas
importantes na Física, como a Relatividade de Einstein e a Mecânica Quântica. O
mundo do infinitamente pequeno começava a descortinar um universo imenso de
possibilidades e novas perspectivas para o pensamento humano. Desde essa época,
o positivismo e o “ realismo cientifico” foi aos poucos perdendo
espaço para um universo de relatividade, onde
o pesquisador, com sua simples observação do objeto de estudo, pode interferir
no fenômeno devido a própria observação realizada.
Paralelamente a esse avanço na Física, onde um universo de amplas possibilidades
se descortinou aos olhos de atentos investigadores da realidade material, outros
dois pensadores deram profundos golpes na pretensão ocidental da supremacia da
racionalidade. O primeiro passo foi dado por Karl Marx, que em sua obra alertou
a humanidade sobre as armadilhas da ordem social, e alertou-nos sobre uma sutil
dominação e influência que a sociedade imprimi em cada um de seus membros. Ao
contrário do que a maioria acredita, o ser humano não pensa apenas com sua
própria cabeça; não têm idéias muito originais e muito daquilo que ele acredita
ser seu, na verdade é o produto de uma
expectativa que a sociedade deposita nele. Segundo Marx, existe uma espécie de
poder invisível que nos força a pensar e agir tal como pensamos e agimos, sendo
nosso livre arbítrio reduzido diante desta dominação.
Depois de Marx, coube a Freud desferir outro golpe na crença da racionalidade
consciente e na total
liberdade de pensamento que geralmente acreditamos possuir. Segundo as pesquisas
de Freud, que deram origem à Psicanálise, existe no ser humano uma instância
psíquica desconhecida, e que exerce uma influência definitiva em nosso modo de
ser e agir no mundo. Freud chamou este aspecto da psique humana de inconsciente.
Essa parte de nosso psiquismo se constitui de memórias, experiências, emoções,
etc que ficaram gravadas no curso de nosso desenvolvimento, e da qual queremos
omitir a nós mesmos. Para tanto, usamos certos mecanismos de defesa que reforçam
a
força de nossos impulsos, e posteriormente podem, não apenas trazer à tona esses
conteúdos rejeitados, como também provocar a sua emergência em momentos
inadequados. Assim, apesar de não admitirmos, nossa consciência sofre toda sorte
de influencias sociais e intrapessoais, e essas forças não apenas atuam em nós,
mas elas foram as responsáveis pela nossa formação e
constituição, de tal modo que não podemos pensar em nós mesmos sem que os
poderes sociais e psíquicos estejam presentes em nosso desenvolvimento.
O mito do poder absoluto da ciência em desvendar todos os mistérios da vida foi
assim enfraquecido. Se o mundo material não é sólido e mecânico, como acreditava
Newton, e nossa realidade concreta depende da posição do observador, então o
mundo não é um local tão objetivo quanto pensamos. Se somos influenciados e
constituídos por aspectos sociais e internos, não
possuímos toda a liberdade de pensamento que se acreditava, pois é sempre
possível que uma idéia que supomos ser pessoal, seja uma idéia originada, ou da
sociedade, ou do inconsciente.
Nesse sentido, o ser humano pode se sentir meio perdido num estado de desamparo,
pois se ele não é o senhor de si mesmo, então sua capacidade é ainda mais
limitada do que se pensava. Porém, é um erro supor que não podemos desenhar e
criar aquilo que desejamos em nossas vidas. Somos seres dotados de liberdade
para optar pelo nosso destino. Porém, essa liberdade é sempre relativa em nosso
estado de consciência. E quanto mais libertos estivermos das influências que a
vida nos impõe, mais poderemos decidir os rumos de nossa existência.
Toda esta reflexão não tem como objetivo defender a hipótese de que o ser humano
não possui livre
arbítrio. Verdadeiramente, não é esta a nossa intenção. Como espiritualistas e
humanistas que somos, acreditamos no ser humano e em seu potencial no rumo da
transformação de seu meio e de sua própria condição. Porém, a liberdade que
antes o homem julgava possuir, hoje sabemos ser uma ilusão. Nesse sentido,
aludimos ao fato de que existem outras formas de liberdade a se conquistar,
porém, uma liberdade mais sutil. A racionalidade objetiva não pode apreender
todas as leis da natureza, pelo simples fato de que a razão é uma expressão
teórica de uma estrutura humana
ligada à sua consciência objetiva. Além dessa estrutura, o ser humano dispõe de
muitas outras facetas, que podemos chamar de estados ou níveis de consciência,
que ainda são desconhecidos da maioria dos seres humanos. Alguns desses níveis
são conhecidos dos psicólogos ocidentais e estão classificados e descritos em
vasta literatura. Outros níveis, os mais elevados, são conhecidos dos
pesquisadores orientais e dos grandes representantes da Tradição Espiritual de
todos os tempos.
A Psicologia Transpessoal, da qual a TVP é parte integrante, tem como um de seus
objetivos o mapeamento desses níveis superiores de consciência, situando o ser
humano num contexto que vai além dos seus aspectos físico, emocional e mental.
Dentro desse enfoque, a TVP pode contribuir para a Psicologia Transpessoal na
medida em que desvela o passado do individuo, reprograma sua existência, rompe
bloqueios muito antigos, torna possível a experiência da morte (mostrando que o
corpo é apenas um invólucro e um revestimento temporário), ajuda na percepção
das causas e dos efeitos de seus atos (fazendo-o ver que colhemos tudo aquilo
que plantamos e que somos os únicos responsáveis pela criação de nosso destino),
mostra que somos seres espirituais tendo uma experiência física e os papéis que
vivenciamos são apenas sombras e sonhos de nosso ser universal. Assim, a TVP tem
muito que contribuir para o avanço da Psicologia Transpessoal, pois se constitui
como terreno fértil para o desenvolvimento da prática que a
quarta força requer.
Como já dissemos, a Terapia de Vidas Passadas admite como hipótese de trabalho a
Teoria da Reencarnação.
Essa hipótese sempre fez parte das religiões e Tradições Espirituais de todo o
mundo. A religião mais antiga do mundo que ainda sobrevive até os dias de hoje é
o Sanatana-Dharma, mais conhecido no Ocidente como Hinduismo. Esta religião tem
como um de seus pilares a “transmigração da alma” ou a reencarnação.
O Budismo também ensina sobre o ciclo derenascimentos e mortes a que estamos
sujeitos, mais propriamente o Budismo Vajrayana Tibetano. Dentre outras
correntes que ensinam ou ensinaram a reencarnação estão o Gnosticismo, o
Druidismo, o Hermetismo, o Espiritismo, a Umbanda, o Rosacrucianismo, a Teosofia,
a Cabala, o Cristianismo primitivo (dos três primeiros séculos depois de
Cristo), os Cátaros, dentre outras tradições. Apesar da crença na reencarnação
ser compartilhada por diversas tradições e em diversas épocas e culturas, nossa
postura como pesquisadores e cientistas não deve ser a de acolher prontamente
aquilo que foi passado de geração em geração, mas sim de buscar a confirmação
desta hipótese dentro de nossas investigações clínicas e científicas.
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