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Feira de Troca de

Alexânia G.O

Olhos D' água

Arte e Artesanato
Fátima Ceramista
Feira do Troca
Boi D´água
Poema Paulo Timm
Folia do Divino

Cd Paulo Tovar

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Foto:Nehil Hamilton

Mistérios de Olhos D’Água
Paulo Timm- Olhos D’água, novembro.- 2001, 
Pour Elise

Há vincos de saudade nos baços e fundos Olhos D’Água
Onde um tempo de folias divinais já não ludibria o tédio.
Tristeza na paisagem humana,
Ou um indecifrável sentimento de perda
Contrastando com a oferta exuberante da natureza.
A exceção fica por conta da tagarelice dos que vêm de fora,
Sempre mais visíveis, cosmopolitas, explícitos,
Independente da origem, da situação social ou outra diferenciação.
E hoje são muitos. Quase tantos quanto os da terra.
E até vão se misturando, como na boa tradição brasileira:
Cordial, sem rodeios, direto ao assunto
Quando se trata de boas intenções...
Maior parte chega e parte. Outros ficam por muitos anos. Outros só passam
Mas deixam seus vestígios
Pelas casas, pelas almas, pelo ar...
São professores, cantadores, autores, atores e outros mais rumores,
Todos com seus diversos humores.
Vêm quase sempre de Brasília, sendo, talvez por isto, olhados com certo viés.
Isto por que foi a construção da capital que roubou da cidade morta
A chama de sua vitalidade.
Isto lá pelos anos sessenta, logo depois que Olhos D’Água virava município
Desmembrado de, Corumbá de Goiás
Sede de tantas tradições goianas
Onde emerge o vulto do Bernardo Ellis com sua pujante literatura regional:
“O Tronco” se destacando como marco da idade de barro desta região.
Quando os carros de boi arrastavam-se na lama ou na poesia durante semanas
Interligando pontos remotos do sertão.
Dominados pela natureza dos homens que providenciavam a subsistência,
Pela coragem das mulheres, que era o que mais era preciso,
Pelo choro das crianças,
Por um estado que escondia sua fraqueza na violência de suas forças.
Pois foi por esta época que um Prefeito-
Alex Abdalla se chamava-
E seus vereadores, todos mancomunados, roubaram a esperança deste sítio.
- No mapa um pequeno vestígio
carregado de dignidade -.

Transferindo para a beira da nova estrada,
-Beira do inferno como todas as cidades novas em estradas novas-
Tão sonhada pelos mudancistas goianos:
A Brasília-Goiânia.
O que viria a ser cidade de Alexânia.
Maldita geografia dos homens
Contrastando com a geografia de Deus
Um lugar encantado pela bênção das águas puras
De Santo Antônio,
Pela religiosidade de sua gente,
Cedendo lugar à mera beira do caminho novo:
Lugar do nada, de almas, de tradições.
Apenas automatizado pela vai-e-vem incessante que tudo arrasta

Levando ilusões, procissões, corações, todos pagãos
Olhos D’Água por Alexânia
A excelência pela excrescência

Olhos D’Água abandonada
À beira do seu altar
Junto do Córrego Galinhas
Logo ali acima formado
Na pureza do cerrado
Sem conhecer no seu curso nenhum impedimento
Apenas lavar os Olhos D’Água
Levando para o Rio Corumbá, mais abaixo,
Suas incertezas, sua correnteza, sua impureza.
Um voltar a ser vila,
O vestígio institucional apagado,
A dignidade maculada.
O progresso comprometido.
Um voltar a ser,
A ser nada,
Quando tudo podia ter sido.
Aqui, talvez, a ferida narcísica da cidade morta:
A raiz de sua saudade,
Os grandes arcos na memória de sua gente,
A origem do ressentimento das casas,
A desconfiança com o que vem de fora,
Portador não se sabe de que mal, mesmo que bem pareça.

Foi neste clima que aportaram na cidade morta,
Lá pelos idos de setenta,
Quando o regime militar no país já esmorecia,
Das mulheres:
Lais Aderne, primeiro
Sinclei Fazzolino, depois.
Dois propágulos ,diria melhor,
De luminosidade nova na trevalume enterrada pela traição.
Aqui chegaram.
Lais com seu marido, lusitano de origem, de exuberância vasta.
Os dois emparelhados na vida e ideais,
Juntando forças no amor à nova morada.
Fabricando a Feira do Troca, inaugurada em 1974
Sinclei com sua inquietação, da qual nem o coração traia,
Acabaria fazendo ímpar parelha com o fruto da terra, Tomazão.
Transbordaria sua bagagem cultural vasta, na América cevada,
Na então denominada Escola Experimental,
Mudando métodos, juntando talentos, valorizando a estima local.
Ambas, tinham que ser mulheres,
- o que elas não conseguem! -
vocacionadas à redenção da cidade morta.
Nesta atitude redimindo a própria Brasília pelo pecado perante ela.
Pois de Brasília as duas vieram.
E em Olhos D’Água fincaram suas garras
Marcando-lhe como presa das suas inteligências.
Mudanças:
Do estado de espírito,
Do estado de coisas marcado pela perda.
Perda das prendas, das artes, perda do orgulho de ser cidade viva, com futuro

Ambas empenhadas na recuperação da alma nativa
Onde homens talhados e
Mulheres endurecidas, pelo tempo, pelo sofrimento, pela devoção,
Jovens sedentos de modernidade e afirmação,
Recolocariam Olhos D’Água no pavilhão das paixões humana

Outros longos anos se passaram.
Olhos D’Água tornou-se popular na região
Tirando das suas feições vilarejas
O encanto para todos que iam e vinham.
E foram muitos.
Uns com suas sementes,
Outros entrementes,
Tudo entredentes.
Onde só os próprios autores e poucos chegados
Interpretavam sutis entrelinhas:
Entre:
Pensão do Bem
e
Passando Bem...
Dois pousos que se fizeram referência
Pela acolhida dos anfitriões, bebida de alguns bebões...
E por isso cedo foi um deles.
Carlão se chamava e fez fama em Brasília como jornalista-
Desistindo de tudo para só existir.
Nos ares da cidade morta-,
Cujos olhos eram tão fundos como os próprios Olhos.
Dois outros benvindos neste tempo
Tiveram também trágico fim,
Pagando com suas vidas
-quem sabe-
O pecado da cidade de onde vinham:
Aluízio e Ivam,.
Ambos brutalmente assassinados.
Vítimas de uma violência reprimida assanhada pelos humores contrafeitos.
Sacudindo a cidade morta,
Deixando rastros de sangue misturados às lágrimas da permanente saudade
Da paisagem bucólica, melancólica
De Olhos D’Água.

Mas salvo o tumulto daqueles tempos-
E destes contratempos-
Tudo permanece igual na cidade morta.
A mesma calma de sua alma,
As mesmas gentes,
Emoticons gravados
Na comunicação.
Salvo, sempre os há, pois há que algo não mude.
Salvo, a coqueteria de fazer-gosto da donzela que atravessa a Praça,
No passo com graça,
Sem afetação, quase uma lenda,
Como a da mocinha que vai á Opera,
Distribuindo charme a promessa vã...
Salvo os descobrimentos da geração amadurecida
No gosto da experimental modernidade aprendida,
Transformando-se, uns em prósperos mortais,
Outros influentes mortalidades,
Outros tantos, entre-tantos...
Salvo, ainda, a tragédia da Feira do Troca,
Unindo agora o ideal apolíneo que lhe deu nascimento
Ao êxtase dionisíaco no que se converteu.
O pandemônio instaurado,
A falta de autoridade públic,.
A insuficiência da liderança local para impor um novo portal do tempo.
No mais tudo igual.
A mesma praça abandonada à intempérie,
Sem bancos que acomodem, nem que fossem gentes.
A mesma igrejinha, povoada por um bissexto padre
Que nas vindas celebra os rituais da vida sem pecado,
Da morte sem medo.
As mesmas casas ao seu círculo, contemplando-a,,
Com o só protesto – até nas cores – da casa amarela, diferenciada.
E uma, ao seu lado, deformada na sua fachada, por algum
Desavisado forâneo que não chegou a compreender
O espírito da cidade morta.
Que de morta, na verdade, tem só a aparência
Para enganar , como o poeta, seus leitores.
Até os animais correndo às dezenas atrás de uma cadela no cio
Em frenético o germinal celebração...

Muda o século. Muda o milênio.
Olhos D’Água parece não se importar muito
Sequer se preocupa com o nascimento de um novo Deus.
É tímido o Natal em Olhos D’Água , comparado com os Pousos,
Quando as noites secas, frias e estreladas se alongam atém a manhã radiante.
A própria natureza se intimida na estação das águas.
Parece afogar-se em tanta água.
Ganha em vitalidade mas perde em preciosismo
O cerrado se impõe na seca
Mas as águas trazem as espigas, trazem fertilidade e expectativas
Quando ocorre fazer uma tarde de sol
Cruzando seus raios o cume das casas para se depositar em arco
Sobre a colina à margem esquerda do corgo.
A cidade morta renasce, resplandece em puro ouro-mel.
Mesmo na estação das secas esta é a hora por excelência de Olhos D’Água
Que a distingue de tantas outras pequenas vilas pelo resto do mundo.
A cidade se excita,
Esquece-se de que é morta.
Crianças correm pelas ruas saídas de escola,
Chega o ônibus do Chico com outros estudantes de Alexânia.
Aqui, a falta de pressa da cidade ajuda a prolongar o momento mágico,
Temperando-se o clima com a exaltação de bêbados e ventres oferecidos
De todos conhecidos.
Pois não há segredos na cidade.
Nada escapa a seu olhar, o olhar dos Olhos d’Água.
Olhar olhado, vivido, pressentido.
Olhar das comadres, das namoradeiras petrificadas às janelas,
Da maledicência sempre disposta a contrabalançar as vaidades humanas,
Que nunca chegam a ser mesmo vaidades, porque inconscientes.
Simples evanescências do espírito.
Todos as têm...

O resto é a vida de cada um, na casa de cada um, na alma de cada um.
Todos no silêncio das suas casas sem forro, maia parede,
Tudo muito simples como as fisionomias, o linguajar, os horizontes
Das gentes simples do local
Onde se pobreza existe, não há miséria,
Nem falta de dignidade humana.
Todos são orgulhosos, mesmo quando melindrosos.
Nunca falta o fogão a lenha,
Cheirando a galinhada no fim de semana,
Com toda a família à volta.
O feijãozinho com lingüiça, ou mesmo sem,
Ainda que sempre todo mundo tem,
Feita nos matadouros da vila, carregadas e vendidas por muita gente.
Mas o sempre indispensável feijão de cor.
Da cor do Goiás, do cerrado, das mulheres bonitas.
Da cor do cair da tarde sobre Olhos D’Água
E muita carne, porque sem carne esta gente não come, não se alimenta,
Sente-se desnutrida.
E carnes por aqui não falta. Sempre tem.
E há fartura de milho nas águas, muita abóbora.
E café cozido com açúcar,
Muito açúcar,
O que faz o desespero dos visitantes
Pouco acostumados a tal verdadeiro vício do interior de Goiás.
De onde Olhos D’Água é pura mostra.
Resistindo ao tempo
Resistindo às mudanças
Resistindo...
E há também a roca. As fiandeiras. A tecelagem.
Os fios de ouro de Olhos D’Água da cor da paisagem
Tradição viva que também resiste.
Curtida na época da colônia
Entrada pelo Império, pela República Velha, pela história do Brasil.
Única maneira de vestir uma terra sem fronteira
Sem produto nobre de exposição a lhe animar o comércio,
Ficando a subsistência por conta de cada um.

Então faz-se noite na cidade morta.
Noites claras, secas, escuras, molhadas.
Na noite de Olhos D’Água a noite não se cansa.
Como não se cansa o tempo em Olhos D’Água. Nasce cansado.
No desencontrar ninguém que não o engane.
E assim se arrasta.
Pelas ruas, pelas casas, pela praça...
Pelas noites.
Talvez este tecido costurado pelo nada.
Me espreite desconfiado.
Eu, que também nada sou, nem quero ser.
Eu, que não faço nada,
Que não quero fazer nada,
Apenas espreito o tempo pela fresta das três portas azuis da minha casa velha.
Voltadas para a praça.
Eu, que sou da pousada,
Mas não moro da pousada
Como explicar tudo iss?. Eu que não faço nada. Nem fiado converso.
Eu que só faço versos.
Me finjo poeta para dizer a que vim,
Neste fm de mundo que me inspira,
Definindo-me por um fim em mim mesmo.
Arrasto-me com o tempo e movo meu pescoço indiferente para ver a praça.
Aí está ela. Imperturbável. Eterna.
Duas Marias-Pretas me enchem os olhos, preenchem o ângulo
Onde me encontro.
É como se fossem elas próprias a Praça viva, carregada de histórias.
E há a igreja, E há a cruz da igreja apontando para o céu. Este véu pontilhado.
Olho devagar e me lembro que me disseram, quando era criança,
Que as estrelas eram lanternas de pessoas perdidas no espaço.
Acreditei.
Sinto-me envolto em mistério. Mistério desta cidade morta.
E nele mergulho fundo encharcando-me da minha infância,
Infância que não se esgota nunca, não fica para trás,
Infância que se repete como a língua dos bêbados, dos loucos, dos sonhos
Infância que se eterniza nesta repetição mítica

Invade-me a saudade. Misturo-me com Olhos D’Água.
Somos iguais. Não mudamos jamais.
E assim, embriagado da nossa solidão, escorrego até o coreto em frangalhos da Praça.

Dali vejo tudo. Tudo é tão claro...