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O DIA EM QUE DRUMMOND DE ANDRADE FALOU DE OLHOS
D´AGUA
Por: Jornal do Brasil de 21 de janeiro de 1975 pg 5 - RJ
Fernando Magalhães, de Brasília,
manda-me notícias de Olhos d`Água.
Povoações e acidentes geográficos com esse nome existem em muitos pontos do
Brasil. Só em Minas há dois pequenos agrupamentos humanos que atendem pelo
topônimo. E sabe-se de variantes lindas, como Olhos D'Água das Flores, cidade do
sertão de Alagoas. O povo costuma batizar com poesia os sítios onde mora ou que
integram o cenário de sua vida.
Este fica nas imediações de Brasília. É uma lugarejo como tantos outros, sem
sequer uma fumacinha de importância no quadro de desenvolvimento nacional. E,
como tantos outros, violentados pelas conseqüências da expansão urbana, que
impõe novas exigências sociais sem a compensação de tranqüilidade e alegria.
Seus moradores, no dizer de Fernando, “postos à margem, embora tão próximos,
permanecem quietos em seus domínios de ninguém, sem reagir, perdido o jeito de
viver e fazer as coisas à moda antiga, diante das novidades à sua volta.
Largavam-se ferramentas e ofícios, era uma culturazinha que definhava e morria”.
Pois é num lugar desses que vão se instalar dois professores, marido e mulher,
vindos da capital? Exato. Armando e Laís trocam as comodidades de Brasília pela
rudeza de uma fazendola perto de Olhos D'Água, e começam a curtir a vida
agonizante do arraial. Curtir, no sentido de interessar-se por ela. Não trazem
as complicações do “progresso” para a gente simples que sabia viver a seu modo,
e agora não sabe como sobreviver. Diz meu informante que Armando e Laís
continuam professores, mas de outra sorte. Ensinam ou reensinam os vizinhos a se
reencontrarem consigo mesmos, estimulando-se em suas atividades hoje
desvalorizadas. Amigos de Brasília acorrem à fazenda e ajudam-nos na tarefa.
Entre eles, Renée e Zaíra, também professores. Todos juntos promovem uma
operação que é das mais antigas do mundo: a “feira de troca”. E com isso fazem
vibrar a pequena comunidade.
Segundo Fernando, a coisa se fez sem o espírito de caridade fútil das madames de
coluna social, nem teria cabimento que assim fosse. Angariou-se tudo que pudesse
interessar aos moradores; roupas e sapatos, principalmente. E nada ficou sem
lavar, coser, passar, engraxar. Anunciada de casa em casa, e depois de grande
expectativa, realizou-se a feira. Como o nome indicava, não era preciso dinheiro
para obter qualquer coisa. Bastava trazer um objeto feito pelo próprio morador,
e a compra se fazia em termos de permuta. Um tear feito a canivete foi
barganhado por um terno completo e um par de calçados. Outro artista achou
colocação para a sua escultura em madeira representando a cena hoje quase
impossível de se ver: dois homens serrando uma tora com grupião, para fazer
tábuas. Esgotada a produção artesanal, os locais passaram a oferecer ovos e
galinhas: fim de feira e festa. Uma mulher muda exprimiu sua alegria com sinais,
pedindo um beijo. Diz Fernando que “ficou assim selado o pacto entre duas
culturas: a que chegava, via e sabia, e a que nem via, mas existia por si, e
desaparecia fatalmente sem o socorro da outra”.
O que é feito com boa intenção distingue-se à primeira vista por seu colorido
humano, e decerto os pobres habitantes de Olhos d`Água sentirão na iniciativa
dos professores o desejo de vê-los ativos, produtivos e confirmados em suas
raízes. A história é simpática, mas faço votos por que feira de trocas seja
apenas uma abertura, não um meio normal de relações econômicas. Infelizmente o
dinheiro existe, e é bom que os humildes artesãos e donos de galináceos, no
triste interior do Brasil, lhe sintam o cheiro. |