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Angra 3 e a sociologia das ciências: até
que ponto 10% é relevante?
André Rubião
Doutorando em ciência política pela Universidade Paris 8
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) acaba de aprovar a
retomada das obras de Angra 3. Apesar de a decisão ainda precisar ser
ratificada pelo presidente Lula, este já se declarou favorável. Estudos do
governo indicam, inclusive, a possibilidade de construção de mais oito
novas usinas até 2030. As manifestações contrárias de nada adiantaram.
Será que foi dada a largada?
A sociologia da ciência é uma disciplina relativamente recente. Ela foi
criada, em 1942, por Robert Merton, primeiro a considerar a ciência como
uma “estrutura social normatizada”. Merton imaginava uma ciência regida
por imperativos institucionais que impedissem a influência de atores
políticos e econômicos. A ciência seria assim o exercício de uma liberdade
racional.
Se pensarmos nos riscos da energia nuclear em termos mertonianos, teríamos
que imaginar que as discussões a respeito desse tema seriam objeto
exclusivo da comunidade científica. Nesse sentido, jamais poderiam ser
consideradas as pressões por parte dos governos ou mercado. A sociologia
das ciências evoluiu; ninguém mais consegue imaginar uma ciência
totalmente autônoma. As discussões a respeito dos riscos da energia
nuclear precisam acompanhar essa evolução.
A briga é antiga, mas vale a pena recapitular. Os defensores da energia
nuclear afirmam que ela é a matriz energética mais viável para o século
XXI. O principal argumento é que, além de não poluir (não gerar produção
de gases que compõem o efeito estufa), ela seria a única alternativa capaz
de combinar o crescimento econômico e o esgotamento das energias fósseis.
Quanto aos riscos de acidentes, eles até existem, afirmam os defensores,
mas são insignificantes. Ora, por que será que os contrários à energia
nuclear discordam desses pontos? Voltemos à história da sociologia das
ciências: talvez ela nos ajude a compreender o porquê.
A teoria de Merton prevaleceu durante os anos 40 e 50, mas acabou sofrendo
um duro golpe com a publicação do livro A Estrutura das Revoluções
Científicas, do historiador das ciências Thomas Kuhn. De forma resumida,
Kuhn recusa o método científico ideal, afirmando que a ciência não
funciona conforme uma pura lógica de objetividade. Ao contrário, ele
reintroduz o conceito de “paradigma” para mostrar que a ciência opera
conforme “modelos predominantes”, ou seja, teorias que são aceitas não
apenas em função do seu sucesso experimental, mas também devido a fatores
institucionais, econômicos, ideológicos etc.
Se pensarmos na questão nuclear a partir dos pressupostos epistemológicos
abertos pela obra de Kuhn, a situação é extremamente delicada. Afinal, ao
contrário do que afirmam os defensores dessa forma de energia, há diversos
trabalhos (vide Dra. Helen Caldicott) que alertam para os riscos que ela
representa. Em primeiro lugar, devido ao lixo radioativo. Ninguém sabe o
que fazer com os resíduos da atividade nuclear; não há como destruí-los. A
solução encontrada foi estocá-los em compartimentos onde a radioatividade,
como no caso do plutônio, pode perdurar por mais de 100.000 anos. A
pergunta é óbvia: será que temos condições de prever alguma coisa nessa
escala de tempo?
O segundo argumento parece ainda mais preocupante. Alguns afirmam que a
manipulação do urânio, em todas as suas escalas de produção (extração,
transporte, manipulação), mesmo diante dos mais modernos meios de
prevenção, acaba liberando partículas de radioatividade impossíveis de
serem detectadas, o que, ao longo do tempo, acabaria gerando graves
problemas para a humanidade. Isso sem contar as controvérsias em termos de
custos econômicos e os riscos de acidentes, como no caso de Chernobil.
Grande parte da sociologia das ciências contemporânea defende um processo
de democratização da ciência. Diante das incertezas, é melhor decidirmos
nós mesmos o nosso futuro, para não ficarmos à mercê dos riscos dos
interesses suspeitos. Exemplos dessas formas participativas são as
“conferências cidadãs”, realizadas na Europa, onde um grupo de indivíduos
comuns é convidado para decidir sobre um determinado tema, após debatê-lo
profundamente com diversos experts.
No Brasil, o programa de governo do PT (2007-2010) tem doze pontos
relativos à política energética; nenhum deles fala da retomada do programa
nuclear. Já a votação do CNPE foi feita com representantes de vários
ministérios. O resultado foi 9 x 1, sendo o voto contrário o da Ministra
do Meio Ambiente. A pergunta que deve ser feita é a seguinte: diante de um
tema tão controverso, que envolve diferentes riscos, até que ponto 10% é
relevante? |