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Inclusão  para todos

O Processo de Romantização das Deficiências

INCLUSÃO PARA TODOS

REFLETINDO SOBRE O USO DA PARÁBOLA DOS CEGOS E O ELEFANTE

Inclusão Ponto a Ponto: A inclusão Social da Pessoa com Deficiência Visual Através da Produção Escrita

O Braille e eu: pontos de amor

João Tomé

 

 

 

 

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Patrícia Silva de Jesus
Professora Especialista em Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva com ênfase em educação de cegos pela Universidade do Estado da Bahia.

 

O Processo de Romantização das Deficiências

 

Entrevista dada a Revista Diversidade [Faculdade Cidade do Salvador] pela Professora Patrícia Silva de Jesus

 

Ping-pong – perguntas e respostas

 

1 – Na sua opinião, porque existe uma romantização das deficiências?

R –  A falta de informação e o distanciamento das pessoas sem deficiência das que possuem alguma limitação sensorial, mental ou física, é um terreno fértil para conclusões precipitadas acerca de como vivem essas pessoas. Quando acontece o contato dessas duas classes de pessoas, sentimentos afloram revelando questões muito íntimas relativas a como os sem deficiência encaram os que possuem deficiência. Além disso, o sentimento de piedade e a própria reflexão acerca da situação de fragilidade que a deficiência impõe, leva as pessoas a criar eufemismos e frases de consolo do tipo “é melhor não enxergar para não ver as coisas feias do mundo” ou “ele é especial por enxergar com os olhos do coração”, como forma de acalmar a profusão de “porquês” que os acometem internamente.

 

2 – O que leva os indivíduos a tratarem as pessoas com deficiência de maneira discriminatória e categorizada?

R - A ignorância, a dificuldade em lidar com os próprios medos e principalmente a falta de convívio e respeito a alteridade podem ser indicadas como as causas que encabeçam a lista de “motivos”.

 

3 – E como as pessoas com deficiência se comportam em relação a como uma pessoa sem deficiência o identificará e o receberá?

R - Seria temerário generalizar essa resposta, uma vez que as pessoas com ou sem deficiência são únicas e possuem uma forma particular de lidar com as diversas situações que a vida apresenta. Conheço pessoa com deficiência que mantêm uma relação muito boa consigo mesma e, de forma muito natural, se aproxima de outros indivíduos e estabelece vínculos profissionais e de afeto com muita facilidade. Por outro lado, existem pessoas que, marcadas pelas experiências negativas de preconceito a que foram submetidas, vivem “armadas”, esperando sempre um comportamento ruim do restante da sociedade, esquecendo que a auto-aceitação é a parte mais importante no processo de inclusão social.

 

4 – Você que vive essa realidade em seu dia-a-dia, existem questionamentos sobre o assunto e quais são eles?

R – Trabalho com um público que já conseguiu superar muitas fases do processo de exclusão social. São profissionais cegos com nível superior, especialização, mestrado, fluentes em língua estrangeira e que já conseguem até rir de algumas situações cotidianas que os angustiariam em tempos pretéritos. Existem os questionamentos corriqueiros acerca da própria existência e de seu papel na sociedade, bem como o interesse científico em tratar desse assunto em âmbito acadêmico, assim como pessoas sem deficiência se sentem motivadas a aprofundar seus conhecimentos na temática.

 

5- Quais são as terminologias mais freqüentes?

R – No contexto da deficiência visual, na tentativa de mostrarem-se polidas e politicamente corretas, as pessoas sem limitação sensorial evitam a palavra “cego” e fazem verdadeiros malabarismos lingüísticos para se referirem a um indivíduo com deficiência visual [risos]. Preferem chamar de “não-videntes”, “portador de deficiência visual”, “portador de limitação ocular” e mais um aparato vocabular que deixaria Aurélio de cabelo em pé!

 

6 – Qual a sua opinião em relação a expressão “pessoas com deficiência”?

R – É uma das expressões mais completas que existe atualmente. Pense comigo: o conceito de deficiência está diretamente ligado à falta de eficácia. Ora, se um indivíduo é deficiente, logo é um incapaz. Se a inclusão sugere parceria entre pessoa em situação de exclusão e sociedade como um todo, em um ambiente de trabalho, por exemplo, onde está tudo devidamente adaptado ao trabalhador com deficiência, neste lugar ele não será um deficiente. A deficiência em si está nele, mas a adaptação do espaço que ele ocupa não deixa que essa deficiência seja fator limitador. Então a pessoa tem uma deficiência, mas não é deficiente, embora em outro ambiente ela possa ter deficiência e ser deficiente. Essa nomenclatura retira do indivíduo a responsabilidade exclusiva de reabilitação e partilha com toda a sociedade, como deve ser no paradigma inclusivo.

 

7 – Para você, qual seria a melhor forma de conviver com as diferenças?

R – Não existe fórmula mágica de convivência e se eu soubesse essa receita deixaria muito advogado sem trabalho, pois eles não realizariam mais divórcios de casais que não conseguem mais conviver por causa das diferenças individuais [risos]. Contudo, o vetor de minha vida aponta para o reconhecimento da marca da heterogeneidade como algo intrinsecamente humano e a aceitação da diversidade como oportunidade ímpar de enriquecimento, como sendo esses os princípios basilares de um bom convívio em grupo.

 

8 – Qual a melhor maneira de tratar aqueles com deficiência?

R – Tecnicamente eu não poderia responder a esta pergunta por não ter nenhuma deficiência [risos], mas como meus amigos cegos já dizem que eu já tenho “imunidade” [risos] para falar de cegos com muita segurança dado ao meu envolvimento em estudos, trabalhos e vivências há aproximadamente 12 anos [até me deram o nome de Patrícia Braille], sugeriria que se escutassem mais as pessoas com deficiência, pois elas podem apresentar idéias sobre que tipo de ambiente e recursos oferecem maior e melhor acesso a uma sociedade mais acolhedora e elas devem saber, individualmente, como gostam de ser tratadas. Não há regra! Muitos projetos fracassam por se pensar que um grupo pode saber o que é melhor para a pessoa com deficiência, sem permitir que tal pessoa sugira a respeito de que forma de convivência contempla melhor sua necessidade especial.

 

9 – O que você diz da supervalorização de um ser humano com deficiência?

R – É um conceito arcaico que põe a pessoa com deficiência em situações muito constrangedoras. Um dia um professor falou aos seus alunos que uma pessoa cega tem uma audição e uma memória tão boas que se alguém disser “oi” e depois de um ano voltar a fazer o cumprimento ele lembrará dessa pessoa. Eu fiquei aflita com o mito que ele acabara de incutir em seus jovens aprendizes e infelizmente não tive coragem de esclarecer tudo naquele momento, principalmente para não constrangê-lo diante da turma.

 

10 – Segundo o autor Romeu Sassaki “Na linguagem se expressa, voluntariamente ou involuntariamente, o respeito ou discriminação em relação às pessoas com deficiência”. Você pode fazer um comentário sobre a afirmação relacionada à abordagem das mídias?

R – A mídia pode e deve ser um aliado poderoso de inclusão social, principalmente se o assunto for tratado de forma muito natural, por exemplo, incluindo nas telenovelas atores com deficiência sem que a ênfase seja a deficiência, para que o grande público tenha contato com realidades diferentes da que vive. Infelizmente as novelas, os filmes e os programas de TV exibem realidades estereotipadas sem relação alguma de verossimilhança. Entendo que a função da maioria dos programas não é educar e sim entreter, mas não precisa “deseducar” ou se omitir diante de um público que clama por uma vida em sociedade.

 

11 – É certo que a população ainda tem muito que aprender para tratar corretamente as pessoas com deficiência. Para você seria correto afirmar que a falta de atualização dos meios de comunicação em relação aos termos utilizados, seria um dos fatores determinantes para tal desconhecimento da população? Comente.

R – Eu reformularia sua afirmação e diria que “é certo que todos nós temos muito que aprender a conviver com nosso semelhante e principalmente com nosso próprio eu”, mas concordo que os meios de comunicação podem ser canais tanto de informação quanto de equívocos, uma vez que são operacionalizados por pessoas que ainda não estão plenamente abertas a conviver com a heterogeneidade.

 

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Especialista em Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva pela Universidade do Estado da Bahia e Licenciada em Letras pela Universidade Católica do Salvador. É bolsista da Universidade Aberta do Brasil/MEC no Programa de Formação de Professores na Área da Deficiência Visual, atuando no campus virtual da Universidade do Estado da Bahia em aulas na modalidade Educação à Distância.