|
O Braille e eu: pontos de amor
Por: Patrícia Silva de Jesus*
Movida pelo desejo pueril de modificar o
mundo através do meu compromisso com a Educação, aprendi Braille
sozinha aos 16 anos, quando fazia o ensino médio em uma tradicional
escola de Magistério de Salvador. Nos corredores da escola, nos
intervalos entre uma aula e outra, eu conheci aquela turma de
colegas, pessoas com deficiência visual, que transitavam com
autonomia, utilizando suas bengalas ou acompanhados de outros
colegas “videntes”. Era tudo tão normal! O transitar de alunos para
comprar sanduíches, a paquera entre adolescentes, os risos, as
crises existenciais, as brigas com os professores por causa de
“notas injustas”... Era algo tão cotidiano que, não fosse o detalhe
de os cegos usarem bengalas para se conduzirem com segurança,
ninguém perceberia a diferença entre aquele que tem e aquele que não
tem visão. Às vezes eu notava a falta de visão por que percebia que
determinada pessoa tinha um olhar perdido em algum ponto do
infinito. Este era apenas um dos pontos que eu aprendi a decifrar,
pois cada letra no Sistema Braille pode ter até seis pontos! E foi
neste cenário de descobertas de um mundo inteiramente novo, que eu
me dei conta de que tudo o que eu mais queria na vida era ser
professora em Educação Especial, pois eu precisava oferecer melhores
condições de acesso ao conhecimento a pessoas que tinham uma vida
tão parecida com a minha, mas que eram excluídos do convívio social
pelo fato de não possuírem o sentido da visão.
E foi assim que o Braille entrou
definitivamente em minha vida. O que parecia ser uma paixão
passageira de adolescente se transformou em afeto, em ternura, em
amor. Amor à genialidade de Louis Braille que, há quase 200 anos,
criou um sistema capaz de acionar no cérebro de um cego de nascença
o ponto relativo à visão; amor à causa da Inclusão Social, direito
meu, direito de meu semelhante e pilar de uma sociedade mais
acolhedora. Aprendi Braille para melhor me comunicar com meus amigos
cegos, que me fizeram enxergar meu semelhante como o próprio nome
sugere: alguém que se assemelha a mim. Agora eu não apenas sei
Braille: eu vivo o Braille. Espalho esses seis pontinhos de cultura
por todo lugar aonde vou. Eu escolhi o Braille como meu parceiro e o
Braille me escolheu como sua tiete, defensora, admiradora fervorosa.
Hoje ele é meu instrumento de trabalho, minha ideologia, meu “ponto”
forte, o primeiro a me dar um sobrenome diferente do que ganhei de
meus pais, sim, pois hoje é muito mais fácil alguém encontrar
“Patrícia Braille” que encontrar “Patrícia Silva de Jesus”. É um
casamento de sucesso, com direito a sobrenome e declaração pública
de amor. E já dura há 11 anos...
Salvador, 8 de abril de 2008
Contato:
patriciasbt@gmail.com
|