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REFLETINDO SOBRE O USO DA PARÁBOLA DOS
CEGOS E O ELEFANTE
Por: Patrícia Silva de Jesus
Comunicar uma idéia, partilhar
pensamentos, sentimentos, vivências, fazer-se compreendido por seus
pares é uma necessidade humana e, na tentativa de saciar esse
desejo, o homem busca aprimorar seus canais de informação. Como
recurso facilitador da explicação de determinado assunto usa-se
freqüentemente o que os gregos chamaram de Parábola, uma ilustração
literária que estabelece um laço de verossimilhança entre a narração
de uma história fictícia e a realidade a qual ela se relaciona.
Assim, é bastante comum a diversas culturas o homem usar histórias
análogas, parábolas, alegorias, ditados populares, fábulas no
transcorrer de sua retórica.
Desde meus primeiros passos no universo
da Educação Especial em meados de 1997, participo de congressos,
seminários e eventos diversos promovidos por instituições de/para
pessoas com deficiência visual e, invariavelmente, algum
profissional da área cita a história Os Cegos e O Elefante. Trata-se
da narrativa do encontro de um grupo de cegos de nascença que tinham
o desejo de conhecer um elefante através do tato e teve seu desejo
atendido por alguma pessoa que os conduziu ao animal e
permitiu-lhes tocar o maior mamífero terrestre. Reunidos
posteriormente e interrogados sobre que formato teria um elefante,
cada um dos cegos apresentou uma versão, baseada em que parte do
corpo do animal eles tocaram. Logo, na concepção do cego que tocou a
tromba, o elefante era como uma serpente, enquanto outro comparou o
bicho a um tronco, por ter tocado a perna. Outro que tocou a orelha
afirmou ser o elefante a semelhança de um leque e assim cresceram os
equívocos em série. Como reza a sabedoria popular, quem conta um
conto aumenta um ponto, então a famosa história apresenta versões
com muitos itens variantes, como o número de cegos protagonistas, o
cenário onde tudo aconteceu, entre outros. Muda-se tanto essa
história que houve quem publicasse um texto chamado “A verdadeira
história dos cegos e o elefante” além de outro intitulado “Os sete
sábios cegos e o elefante”. Embora esses dados não alterem minha
impressão sobre o uso desse texto de conteúdo duvidoso e gosto
questionável, prefiro acreditar que sua origem é hindu e que sua
versão mais difundida foi produzida pelo poeta americano John
Godfrey.
Sei reconhecer a importância de
profissionais que fazem de seu trabalho remunerado o seu compromisso
diário na luta por melhores opções de convivência em sociedade, mas
me sinto angustiada cada vez que escuto esse caso do elefante ser
citado como exemplo de como se processa a percepção tátil em um cego
e até me perguntei seguidas vezes onde seria possível encontrar sete
cegos com um déficit intelectual/sensorial tão severo a ponto de
tocarem em partes isoladas de um todo e não se sentirem motivados a
explorar o restante, tendo em vista que o sonho da vida deles era
conhecer o tal do sucessor do mamute. Já me perguntei também se eu
não estaria sendo muito rígida em relação ao texto, por se tratar de
uma obra de ficção, mas a resposta que eu mesma me dei depois de
muito pensar é que eu não estou censurando a fantasia de quem
escreveu e sim contestando a sua utilização por profissionais da
Educação Especial pois, mesmo após estudos e convivência com pessoas
com deficiência visual, insistem em utilizar como parábola um
material que reforça idéias preconcebidas e denotam que estudar e
conviver não foram suficientes para eliminar o estereótipo já
calcificado, endurecido como uma rocha. Insistem, talvez de forma
inconsciente, em difundir o modelo do cego dependente exclusivamente
da intervenção de um vidente, como se a cegueira em si fosse um
fator limitador das funções intelectuais de um ser humano.
Não faço coro com os que, de maneira
irresponsável, afirmam que as pessoas cegas são iguais às videntes
na aquisição do saber, pois já me convenci, após estudos e
observações práticas, que nem mesmo entre os videntes a aprendizagem
se dá de forma unívoca. Reconheço a cegueira como uma limitação
grave: a ausência de visão em uma sociedade onde a maioria das
informações se dá de forma visual, oferece uma situação que merece
ser tratada com seriedade. Tenho inúmeros amigos e ex-alunos cegos e
com baixa visão. Pessoas com as quais eu aprendi a me libertar de
alguns preconceitos e a iniciar meu processo de eliminação de tantos
outros, pois acredito que ser preconceituoso é condição de quem
pensa e até brinco com uma frase célebre [Descartes que me perdoe]:
penso, logo sou preconceituosa. Justifico dizendo que não estamos
imunes a fazer uma imagem mental de uma determinada pessoa ou
situação nova, mas que essa impressão preconcebida deve ser
avaliada, questionada para não nos tornarmos escravos dos equívocos
na convivência com nosso semelhante. Esperar que todas as pessoas
cegas tenham os mesmos excelentes resultados em diferentes áreas do
conhecimento é uma forma de preconceito que torna sofrível a
inclusão das pessoas com deficiência na sociedade, especialmente nas
escolas onde professores exigem que seus alunos cegos tenham os
mesmos rendimentos e percepções táteis/sinestésicas que outros cegos
que os antecederam. Quanto a isso, já ouvi diversas vezes pessoas
cegas se queixarem e afirmarem que preferem ser alunos de
professores que nunca tiveram em suas classes regulares um aluno com
cegueira, pois assim as comparações inexistiriam.
Com tantos problemas a serem sanados,
com tanta gente séria batalhando por sua inclusão e de outros nos
seguimentos gerais da sociedade, em meio aos inúmeros problemas como
falta de recursos financeiros, falta de qualificação profissional
consistente, hipocrisia de quem nunca conviveu em nenhum momento de
sua vida com uma pessoa com deficiência e se arvora porta-voz dessa
parcela da sociedade, nesse cenário crítico onde faltam livros,
segurança pública, um desenho arquitetônico que contemple a
diversidade de moradores de determinada área urbana, não dá para
ficar quieta e me conformar com o fato de ainda existirem
profissionais que, quando têm a oportunidade de desmistificar
pensamentos errôneos, formadores de opinião que são, acabam por dar
reforço aos estigmas, por não selecionarem criticamente seus
recursos de palestra. Para mim, o maior celeiro de exemplos práticos
e que facilitam a compreensão de outras pessoas, são os vividos
diariamente desde minha decisão em ser professora de Braille e ouvi
pela primeira vez a famosa história do elefante e os cegos, animal
que coloco aqui, propositadamente, antes dos três ou sete cegos da
história, pois durante todo o este texto me detive a defender a
Educação de pessoas com deficiência visual e em nenhum momento
manifestei solidariedade ao pobre bicho, vítima dos equívocos dos
“sábios cegos”, sem voz para se defender dessa parábola mal
utilizada, que talvez a partir de hoje seja encarada por mim com
maior senso de humor, embora minha opinião sobre ela continue a
mesma!
27 de maio de 2008
Contato:
patriciasbt@gmail.com
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